Esporte Ágil - Comercial estreia na Série D contra o “próximo campeão do MT”
Esporte Ágil | Danilo Galvão | 17/05/2017 17h10

Comercial estreia na Série D contra o “próximo campeão do MT”

Compartilhe:

No Morenão, às 17 horas, começa a vida do Comercial na Série D do Campeonato Brasileiro, que terá pela frente o Sinop, clube de características bem peculiares para uma ascensão, e com grande tendência a conquistar o quarto titulo mato-grossense em 2018. Diferente da maioria das equipes do interior do Brasil, o Sinop aposta em planejamento, e não é com discurso vazio. O treinador que perdeu a final, assim como boa parte da estrutura do time estará no ano que vem, sem contar que há um padrão de jogo muito consolidado na equipe, que serve tanto como uma virtude, quanto para um problema para o Galo do Norte.

Time que revelou Rogério Ceni para o futebol está na fila há 18 anos, quando chegou ao terceiro título estadual, porém, atualmente se organiza bem para mudar isso

A intensidade na verticalização é uma marca da fase ofensiva do time de Marcos Birigui , ex-jogador do Guarani (com passagem também pelo Santa Cruz). Fundamentado em um 4-2-3-1, o Sinop na transição ofensiva não faz questão de chegar com muitos jogadores na defesa de adversários, pois não se atém a ocupar muito os dois terços finais de campo. Na fase defensiva, a leveza de laterais “com espírito de ala” – principalmente do setor direito, onde a equipe força mais quando ataca – é compensada com uma dupla de volantes de boa capacidade para cobertura, o que torna o Sinop um time seguro.

Padrão tático preliminar do Sinop, que também varia no 4-3-3, ou 4-5-1 em situações de fase defensiva, com destaque para sistema de coberturas

No campeonato estadual do Mato Grosso de 2017 foram 11 gols tomados em 12 jogos, sendo que a equipe fez 25 gols. De todos os jogos que o Sinop disputou nessa edição, em três ocasiões não sofreu gols, e foi justamente as vezes que goleou: 3 x 0 no Cacerense, pela segunda rodada, 3 x 0 no Mixto pela terceira rodada, e 4 x 0 no Dom Bosco, na primeira partida das semi-finais. Os espetáculos do Galo do Norte, com controle de jogo quase que absoluto ocorreram dentro de casa, no Estádio Massami Uriu, popularmente conhecido como Gigante do Norte, de capacidade para público de 13 mil pessoas e um gramado que explica bem porque o time de Marcos Birigui prefere a objetividade de contra-ataques do que a posse de bola com alternância de pressão. Goleada fora de casa apenas sobre o Cacerense, time pelo qual Marcos Birigui conquistou já o Campeonato Mato-Grossense, em 2007.

Ataque rápido, com destaque ao jogador Andrezinho e Cabralzinho, com natureza de tática individual para "segundo atacante" (Olhar Esportivo)

Fora de casa, o Sinop deste ano só tomou mais de um gol em três jogos, todos com realização na Arena Pantanal, um 2 x 2 com o Mixto, pela 8ª rodada, um 3 x 2, na vitória sobre o Dom Bosco, no jogo de ida das semi-finais, e a primeira partida da decisão, contra o Cuiabá, terminada em 2 x 1. O que pode parecer coincidência tem a ver com velocidade do jogo, e condições esportivas para que a disputa flua, seja no tempo de bola rolando, ou o próprio cenário para ser atacado. “Campo melhor” permite que pressão dos adversários do Sinop aconteça com mais técnica e o Galo do Norte não fica muito confortável nessa circunstância.

O segredo para uma vitória do Comercial, ou desempenho de hegemonia na disputa pode vir da ocupação efetiva do campo do Sinop, desde que isso ocorra com tempo suficiente para desestruturar a disposição de saída do time de Marcos Birigui nos contra-ataques. E como isso acontece? Se optar pela posse de bola, algo comum a mandantes, o Comercial precisará incomodar o setor direito do visitante do Norte, mas não de forma óbvia apenas atacando por esse setor. Esse problema precisa ser induzido com movimentação, troca de passes e “se possível” orientação para cruzamentos, pois a bola aérea não é um forte para a defesa dos nossos vizinhos. Forçando isso, pelo menos dois dos três homens de frente passariam a vir mais para o terço médio do campo e até marcação de laterais do Colorado.

Fase ofensiva da Juventus, em que o adversário é presionado  na defesa e fica com saída "naturalmente desorganizada" para contra-ataque

O risco a ser considerado é a rapidez do Sinop na reconstrução ofensiva. Em campos com maior área de jogo, como é o caso do campo do Morenão, esse alerta deve ser redobrado. O motivo para tal cuidado é a dupla dos atacantes Cabralzinho, Andrezinho e o meia Alex. Quando precisa ser mais agudo, o ataque do Sinop ganha a presença de Preá, atacante pesado, mas que segura bem a bola na frente. Em Campo Grande, Preá deve entrar só no segundo tempo, e tem como característica praticamente marcar o zagueiro, na linha central do campo, igual a um pivô. Na ausência dele, o mais avançado é Andrezinho, e o Sinop sai de um 4-2-3-1 para um 4-3-3 de falso 9, aquele esquema que os pontas puxam mais que o centro do trio, formatação que depende de homens com vocação de finalização nos wingers. Foi graças a esse modelo de jogo que um "segundo atacante por natureza" foi o artilheiro do campeonato estadual de lá: Andrezinho (8 gols).

Andrezinho, que seria um “segundo atacante de 4-4-2” serve também como referência no 4-3-3 de Birigui, mas isso ocorre pela movimentação do time, que também possui em Cabralzinho a mesma polivalência. Do outro “segundo atacante do treinador” vieram também 6 gols, graças a muita chegada pelas pontas, especialmente o lado esquerdo do campo. Contra o Fluminense, em março, no Gigante do Norte, na desclassificação do Sinop na Copa do Brasil Cabralzinho foi opção para o segundo tempo, mesmo sendo uma peça importante do time. Se aconteceu devido a condições físicas do atleta, o treinador está perdoado pela entrada de Sandro no lugar, de menos mobilidade e habilidade. Contudo se a medida foi para “equilibrar” o desempenho do Galo do Norte, frente a um adversário de primeira divisão, o eventual erro custou caro. O Fluminense de Abel conseguiu ainda no primeiro tempo o controle de campo, algo que condicionou a virada depois. Se o 4-3-3 de Birigui continuasse atrevido do início ao fim, o tricolor carioca teria mais dificuldade em validar seu modelo de jogo. Nisso Cabralzinho poderia ter ajudado se estivesse nos 90 minutos da partida. Equipes do interior geralmente cometem essa falha de espelhar a tática de adversários maiores, o que pouco dá certo.

 

Gol do Sinop, no momento 0:35 do video, com a equipe na situação de 4-3-3, dois jogadores de lado (winger) mais avançados (Sportv/Youtube)

Uma alternativa ainda viável ao Comercial é “dar o campo” para o Sinop, que por sinal conta com jogadores de qualidade para atacar, apenas prefere fazer isso de maneira pontual. Evitar o protagonismo da partida, no entanto, testaria o adversário em algo que ele responde bem, que é a recomposição de defesa. O Sinop toma poucos gols porque aposta no contra-ataque, mas sabe que na transição ofensiva dessa natureza também corre o risco de perder a bola. Mesmo que o Colorado “empreste a figura de mandante” ao time de Mato Grosso, não verá um oponente atacando com proximidade entre as linhas de frente, ou ocupação massiva no terço final de campo e trabalho de bola com paciência até a finalização. Com quatro sempre de alerta entre os dez de linha, é difícil pegar a equipe de Marcos Birigui desguarnecida.

A cobertura de imprensa do Sinop especula que Andrezinho não esteja na estreia, devido a recuperação de uma lesão no braço esquerdo, ocorrida em 30 de abril. Mesmo com o problema, o jogador atuou no segundo jogo da decisão, disputado em 7 de maio e desde então recebe cuidados médicos. Há a possibilidade operação, contudo não seria de intervenção complexa, uma vez que sendo feita o atleta ficaria apenas fora de um jogo, no caso o de domingo. Por ser uma estreia, e o meia Alex também ser dúvida não seria uma surpresa se um deles aparecesse na escalação, com entrada do outro no segundo tempo. Dois eventuais suplentes para essas ausências são os jogadores Valtinho, Sandro ou Jean, com chance do esquema variar para um 4-4-2, e menos mobilidade, com aposta em contra-ataque a partir da retomada de bola criada com a dificuldade de duas linhas de quatro, e Preá, com alguma companhia rápida na frente.

Time do Mato Grosso tem como certo mesmo o desfalque de um zagueiro titular no jogo de domingo: Marinho (Assessoria) 

O Sinop que jogará em Campo Grande no domingo é um modelo clássico de time do Interior do Brasil, onde algumas opções de estrutura ainda são mantidas, como a descompactação dos setores, e transições na fase ofensiva exageradamente rápidas, baseadas em verticalização, com no máximo dois receptores para organização de jogadas de inversão. Outro ponto que precisa ser relevado é a competição que o Comercial enfrenta o Galo do Norte, onde o pragmatismo na primeira fase é fundamental. Vencer em casa e beliscar pontos fora é o que garante a passagem ao mata-mata, por isso o planejamento do Sinop deve ser de um empate por aqui, e havendo condições uma vitória, a vantagem seria administrada em cima do desespero dos mandantes. Para superar essa proposta de jogo, recomendo que o Colorado não espelhe a tática do Sinop, até porque em tradição, não há como comparar as duas camisas. Se dentro de campo a postura do Colorado for de um clube com 9 títulos estaduais e outros dez vices, o Mato Grosso do Sul começa bem no Grupo 10 da Série D.  

A imagem pode conter: 1 pessoa, sorrindo, close-up

 

*Danilo Galvão é jornalista, com MBA em Gestão Estratégica de Negócios além capacitação em Gestão Esportiva, Gestão de Terceiro Setor e Análise de Desempenho em Futebol

VEJA MAIS
Compartilhe:

PARCEIROS