Da Redação
“Não imaginava assim, mas foi o que Deus planejou.” A frase resume o caminho de Samuel da Gama Oliveira no futsal. Goleiro do Jaraguá Futsal, uma das principais equipes do país, o jovem atleta construiu sua trajetória a partir de circunstâncias inesperadas, decisões familiares e persistência diante das limitações impostas a quem sonha em viver do esporte longe dos grandes centros.
Nascido em 16 de outubro de 2008, em Sorriso (MT), Samuel se mudou ainda recém-nascido para Naviraí, no sul de Mato Grosso do Sul. É ali que ele se reconhece. “Sou natural de Sorriso, Mato Grosso, mas já recém-nascido fui morar em Naviraí, no MS, tanto que me considero um sul-mato-grossense”, afirma.
O contato com o esporte começou cedo. Aos 9 anos, ele já praticava futsal, mas o sonho inicial era outro. “Meu sonho sempre foi ser atleta de campo. Não pensava nem em ser goleiro. Assim que comecei a jogar futebol e futsal, jogava na linha”, relata. Apesar de algum destaque jogando fora do gol, a posição que definiria sua carreira surgiu por necessidade.
No primeiro campeonato de futsal que disputou, o time não tinha goleiro fixo. “Como não tinha goleiro nem nos treinos, o professor sempre revezava os alunos para ir no gol. Quando eu fui, fui bem. Então o professor não pensou duas vezes e me colocou para defender.” A partir daquele jogo, Samuel passou a atuar como goleiro. “Não imaginava assim, mas foi o que Deus planejou.”
Mesmo consolidado na posição, o caminho entre futebol e futsal seguiu dividido por anos. Samuel realizou diversos testes no futebol de campo, sempre com bom desempenho inicial. “Eu passava nas primeiras avaliações, mas sempre davam a desculpa de que eu era muito pequeno para ser goleiro.” A justificativa se repetiu até os 16 anos. “E realmente eu não cresci para ser goleiro de campo.”
A virada definitiva ocorreu no início de 2024, quando ele e o pai decidiram apostar no futsal. A decisão veio acompanhada de incertezas. “Meu pai mandou eu procurar times para fazer testes, mas eu não conhecia nenhum time de futsal.” A oportunidade surgiu pelas redes sociais, com um post anunciando uma seletiva do Jaraguá Futsal.
“Falei para o meu pai e ele disse que o time era muito bom e famoso, que seria uma boa eu fazer o teste.” Mesmo sendo seu primeiro teste específico no futsal, Samuel encarou o desafio. Ele também levou um amigo, Giovane, conhecido como Cafu. “Não pude deixar de tentar levar alguém junto comigo para tentar realizar um sonho.”
Os dois passaram pela primeira fase da seletiva, mas apenas Samuel seguiu adiante. “Fiquei triste por ele, mas feliz por ter tentado ajudar a realizar o sonho de um amigo.” O resultado final marcou um ponto de virada. “No meu primeiro teste de futsal, entrei no time. Estou até hoje, renovado para 2026 com o Jaraguá Futsal.”
A trajetória também evidencia as dificuldades enfrentadas por atletas de Mato Grosso do Sul. “Dificilmente alguém vai te dar suporte para tentar realizar o seu sonho. Poucas pessoas do próprio estado te conhecem.” Ainda assim, ele reconhece que as oportunidades existem para quem consegue acessá-las. “Aqueles que têm a oportunidade sempre agarram e vencem.”
Ao longo do caminho, Samuel destaca o apoio recebido. “Não posso deixar de falar da minha família, dos amigos, atletas e treinadores. Desde o meu primeiro professor, o ‘Li’, até o meu último treinador, o ‘Esquerdinha’, sou muito grato.” Ele também menciona pessoas de Naviraí e Maracaju como fundamentais no processo de formação.
A rotina no Jaraguá segue o padrão de um atleta de base em clube de alto rendimento. “De manhã e à tarde, treinos. À noite, estudo.” Para ele, o cansaço faz parte do processo. “É uma rotina cansativa, mas para quem quer ser atleta profissional não é muita coisa. Os profissionais têm uma rotina ainda mais pesada.”
Dentro de quadra, os jogos ainda foram limitados. Duas lesões interromperam a sequência. A mais recente, uma ruptura no ligamento cruzado anterior (LCA), o mantém afastado até julho. Mesmo assim, ele relativiza a ausência de momentos específicos. “Todo jogo com essa camisa é marcante. Cada treino e cada oportunidade são importantes para se tornar melhor.”
Atento ao cenário estadual, Samuel avalia que o futsal sul-mato-grossense vive um processo de evolução. “Vejo muitos atletas do MS se dando bem em times de fora.” Para ele, o próximo passo passa pelo poder público e pelas entidades esportivas. “Seria importante que prefeituras e a federação dessem mais atenção, ajudando com passagens para testes, por exemplo.”
Os objetivos são diretos. “Primeiro, voltar a jogar. Depois, quem sabe assinar meu primeiro contrato como atleta de futsal.” A busca diária, segundo ele, é simples de definir. “Me tornar melhor do que ontem.”
A mensagem final é direcionada a quem compartilha o mesmo sonho em Mato Grosso do Sul. “Agarrem as oportunidades, sejam humildes, honestos e ajudem o próximo.” Para Samuel, aprender é parte essencial do caminho. “Nunca deixem de escutar quem tem algo a dizer para a sua vida.” E conclui com aquilo que, segundo ele, orienta suas escolhas. “Sempre coloquem Deus na frente de tudo. Ele te guiará e te dará forças.”