Da Redação
“Vivo como atleta, mas sem o salário de um.” A frase resume a rotina de Guilherme Santos Pereira, ciclista amador de mountain bike que se consolidou entre os principais nomes da categoria Master A1 em Mato Grosso do Sul. Campeão estadual de XCM em 2025, vencedor da Pata de Onça em dupla mista no mesmo ano e bicampeão da Copa Conesul em 2023 e 2024, ele construiu sua trajetória a partir de uma decisão tomada durante a pandemia, quando buscava melhorar a saúde e retomar o contato com o esporte.
Nascido em 5 de janeiro de 1992, Guilherme conta que sempre teve ligação com atividades esportivas, principalmente o futebol. O ciclismo, porém, surgiu em um momento específico. “A vida toda fui do esporte, principalmente futebol. Na pandemia fiquei só em casa e trabalhando, comecei a engordar e resolvi comprar uma bike simples para perder peso e andar com a minha filha”, relembra. O hábito se transformou em desafio pessoal quando passou a pedalar com amigos e percebeu que precisava evoluir para acompanhar o grupo. “Como sempre fui competitivo, comecei a treinar mais. Fui para uma prova em Dourados e me encantei com aquele ambiente. A partir daquele dia resolvi treinar para competir”, afirma.
A evolução veio acompanhada de resultados. Em 2025, ele conquistou o título estadual de XCM na categoria Master A1, considerado por ele o principal objetivo da carreira até então. “Foi o título que eu mais almejava, porque para mim seria o auge de um ciclista amador do MS. Foram três anos de preparação, com decepções e alegrias. Com o apoio da minha família me mantive firme e precisava conquistar para honrar todos que acreditaram em mim”, diz. O resultado também marcou um feito inédito para sua cidade natal. “Ser o primeiro fatimasulense campeão estadual de ciclismo teve um significado muito grande.”
Outra conquista relevante foi a vitória na tradicional prova Pata de Onça, disputada em dupla mista, considerada uma das mais exigentes do calendário regional. “São 250 quilômetros em dois dias, uma prova muito dura. Tive o privilégio de correr com a Karol, uma atleta elite do ciclismo feminino, o que aumentou minha responsabilidade. Cheguei bem preparado física e mentalmente e conseguimos conquistar esse título tão difícil”, relata. Para ele, o desempenho em provas longas exige planejamento e apoio técnico constante.
A regularidade também marcou a campanha na Copa Conesul, competição composta por várias etapas ao longo do ano. “A Copa Conesul te faz manter ativo e em alto nível o ano todo, com etapas difíceis e competidores do MS e do Paraná. Conquistar duas vezes seguidas foi muito importante para a minha trajetória”, afirma.
Mesmo com resultados expressivos, Guilherme ressalta os desafios de conciliar o esporte com a vida profissional e familiar. “Vida de atleta amador não é fácil. Criei uma rotina de treinar pela manhã, trabalhar durante o dia e dedicar a noite à família. Me privei de muitas atividades sociais, porque treinava seis vezes por semana e precisava estar preparado para o dia seguinte”, explica. Segundo ele, a estrutura de suporte é fundamental para manter o desempenho e evitar lesões.
A preparação envolve uma equipe multidisciplinar. “Tenho treinador de ciclismo que monta os treinos e controla as cargas, personal trainer para cuidar do corpo, fisioterapeuta para a recuperação pós-prova, médico endocrinologista para exames e acompanhamento físico e uma psicóloga esportiva para trabalhar a parte mental. O corpo precisa estar alinhado com a mente para conquistar grandes resultados”, destaca.
Sobre o cenário do mountain bike em Mato Grosso do Sul, o atleta aponta crescimento técnico e organização das provas, mas também identifica limitações estruturais. “Temos atletas de alto nível levando o nome do estado pelo Brasil. As provas são bem organizadas por pessoas que amam o esporte. O que ainda falta é incentivo do poder público, não só no ciclismo, mas em todos os esportes”, avalia.
Entre os momentos que marcaram sua trajetória, Guilherme cita o primeiro pódio conquistado em Jateí, em 2022. “Vinha de covid e fui para me superar. Acabei surpreendido com um pódio e ali percebi que tinha potencial para ir mais longe”, recorda. Desde então, ele manteve a constância nos treinos e passou a buscar metas cada vez mais específicas.
Para o futuro, o ciclista pretende equilibrar competições e experiências fora do ambiente competitivo. “Quero conhecer lugares como Caminho da Fé e Serra da Canastra, mais pelo turismo e pelas paisagens. Claro que vou continuar competindo e prestigiando provas para rever os amigos que fiz ao longo dessa trajetória”, afirma.
Ao falar com iniciantes, Guilherme destaca o valor do processo e das relações construídas no esporte. “Aproveite cada conquista, cada pedalada e cada quilômetro percorrido. Valorize as amizades que surgem ao longo do caminho, porque isso é o mais importante no ciclismo”, conclui.