Da Redação
“Uma falha, uma decisão errada, pode acabar com o psicológico de um goleiro.” A frase resume não apenas a posição ocupada por Vitor Neres Fernandes dentro de campo, mas também a forma como ele enxerga o futebol amador em Mato Grosso do Sul. Aos 22 anos, nascido em 26 de abril de 2003, em Campo Grande, o goleiro construiu sua presença na várzea a partir de improviso, persistência e continuidade, mesmo quando tudo indicava uma pausa definitiva no esporte.
Vitor começou no futebol ainda criança, em uma escolinha do bairro, mas longe das traves. “Na verdade, eu comecei como zagueiro”, conta. A mudança de posição aconteceu de forma circunstancial, em um amistoso em que o goleiro faltou. “Depois disso, nunca mais saí debaixo das traves”, afirma. O episódio acabou definindo não apenas sua função em campo, mas também sua identidade no jogo.
Aos 17 anos, Vitor chegou a treinar no Comercial, clube tradicional do futebol sul-mato-grossense. O período, no entanto, foi interrompido por questões familiares. “Por conta de problemas familiares, tive que parar e começar a trabalhar. Nesse ano, eu pensei em desistir de jogar”, relembra. A rotina fora do esporte e a necessidade de priorizar outras responsabilidades quase encerraram sua relação com o futebol competitivo. “Mas o futebol falou mais alto e foi aí que eu surgi no amador”, completa.
Foi na várzea que Vitor encontrou espaço para seguir jogando e acumulando experiências. Os primeiros passos no futebol amador aconteceram em equipes formadas por amigos. “Os primeiros times foram Amigos do Ruivo. Foi dali em diante que comecei a jogar futebol amador”, relata. A sequência de jogos levou o goleiro a diferentes campos e arenas de Campo Grande, como Arena Fofinho, Arena Noroeste, Campo do Arnaldo e Arena Martinão, espaços que fazem parte do cotidiano da várzea da Capital.
Para Vitor, atuar como goleiro vai além da posição técnica. “Os desafios de cada jogo” são o que mais o motivam. Ele resume o peso da função de forma direta: “O goleiro é 90% do time”. No futebol amador, onde a organização nem sempre é constante e os jogos costumam ser decididos em detalhes, a leitura de jogo e o controle emocional se tornam ainda mais determinantes.
A pressão, segundo ele, exige equilíbrio. “Eu tento ser o mais calmo possível durante os jogos, porque uma falha, uma decisão errada, pode acabar com o psicológico de um goleiro”, explica. A fala revela uma consciência clara sobre a responsabilidade individual dentro de um esporte coletivo, especialmente em competições de tiro curto, comuns no cenário amador.
Entre os momentos que marcaram sua caminhada, Vitor destaca a Liga Terrão de 2024. “Foram três jogos excelentes pela fase de grupos”, recorda. As partidas, segundo ele, aconteceram contra equipes experientes e exigiram resiliência. “Mesmo saindo atrás do placar, nossa equipe não desistiu e foi em busca do resultado, e eu consegui fazer ótimas defesas e ajudar minha equipe”, afirma. Para o goleiro, a competição representou não apenas boas atuações individuais, mas também um aprendizado coletivo.
Fora de campo, o apoio familiar e das amizades é apontado como fundamental para seguir jogando. “Meus pais, meus irmãos e meus amigos”, enumera. Ele faz questão de destacar uma pessoa em especial. “Tem um amigo diferente que faz toda a diferença no que ele me incentiva, Pedro Henrique Paredes, meu melhor amigo, que me incentiva bastante nos jogos”, diz.
A rotina conciliando trabalho e futebol é organizada a partir da constância nos jogos. “Os jogos durante a semana são à noite, então fica melhor. Nos finais de semana, durante o dia”, explica. Como trabalha durante a semana e não atua aos fins de semana, Vitor consegue manter a regularidade. Para ele, o treino está diretamente ligado ao ato de jogar. “Treino, para mim, é não parar de jogar. Toda semana jogar um jogo, nem que seja uma pelada de dois ou dez. O importante é não parar.”
Ao analisar o cenário do futebol amador em Mato Grosso do Sul, Vitor aponta dificuldades que vão além das quatro linhas. “Oportunidade. Muita falta de confiança nos goleiros”, afirma. Ele observa que muitos times se formam a partir de vínculos pessoais. “Alguns times fecham muito por amizade e nome”, completa, ao comentar as barreiras para quem tenta se firmar apenas pelo desempenho em campo.
A evolução, segundo ele, vem da convivência com atletas mais experientes. “Experiência conta muito”, resume. Jogar ao lado de nomes mais rodados mudou sua postura. “Hoje em dia, eu não deixo de escutar conselhos, formas de agir nos jogos. Isso conta muito para a minha evolução”, avalia.
O futuro, para Vitor, é tratado com expectativa, mas sem promessas grandiosas. O objetivo principal é claro. “Meu objetivo é ganhar um grande título de um campeonato expressivo”, diz. Ele reconhece que esteve perto em outras ocasiões. “Ultimamente venho só batendo na trave, mas esse ano pode chegar esse grande momento”, projeta.
A ambição, no entanto, não se desconecta da realidade do futebol amador. “Eu creio que posso chegar ao topo um dia, ganhar uma Liga Terrão, por que não?”, questiona. E conclui com uma frase que sintetiza sua permanência no esporte: “Se a gente não tenta, nunca chegaremos lá.”