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“Temos que conquistar o respeito”: Karina Carvalho fala sobre desafios e planos na arbitragem

da Redação - 28 de ago de 2026 às 14:35 121 Views 0 Comentrios
“Temos que conquistar o respeito”: Karina Carvalho fala sobre desafios e planos na arbitragem Da Redação

A relação de Karina Carvalho Rocha com o esporte começou ainda na infância e passou inicialmente pela condição de atleta. Natural de São Paulo, capital, e criada na Bahia, ela construiu sua trajetória ligada principalmente ao futsal e ao futebol. O caminho até a arbitragem, no entanto, não começou com a intenção de seguir uma carreira na área. O convite partiu de sua companheira, hoje esposa, e inicialmente Karina enxergou o curso apenas como uma oportunidade de cumprir horas complementares na faculdade.

 

“Minha vida desde pequena foi e é envolvida pelo esporte, principalmente pelas modalidades de futsal e futebol. Tudo começou sendo atleta e, logo em seguida, me formando no colegial e já iniciando o mundo da faculdade”, conta.

 

Foi nesse período que surgiu o convite para realizar o curso de formação de arbitragem de futebol. A sugestão veio acompanhada de uma avaliação de que Karina tinha o perfil necessário para atuar como árbitra. Sem grandes expectativas profissionais naquele momento, ela decidiu participar.

 

“Vou confessar: só fui pelas horas que podiam ser complementares na faculdade. Fui sem intuito nenhum de me tornar uma árbitra”, lembra.

 

A experiência durante o curso e, principalmente, as atividades práticas fizeram Karina mudar de ideia. Depois de concluir a formação e passar pelos estágios, ela começou a ter contato com a rotina da arbitragem e decidiu dar uma oportunidade à nova atividade.

 

“Assim que finalizei o curso e realizei as atividades práticas, eu decidi dar uma chance e tentar seguir carreira. Realizando os estágios e vivendo na pele o que é ser árbitra na vida real, fui me apaixonando cada vez mais pela profissão, que ainda não é uma profissão”, afirma.

 

O passo seguinte foi a realização dos testes físico e teórico da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul (FFMS). A partir daí, Karina começou a atuar em partidas realizadas no Estado. Depois de alguns anos, surgiu o convite para ocupar uma vaga vinculada ao quadro da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

 

“Logo em seguida, realizei os testes físico e teórico da FFMS, comecei a atuar nos jogos do Estado e, depois de alguns anos, surgiu o convite da FFMS para suprir a vaga de CBF. Então aceitei e realizei os testes físico e teórico nos índices nacionais, onde estou já há três anos”, explica.

 

A presença no futebol profissional também trouxe desafios relacionados ao fato de ser mulher em um ambiente historicamente ocupado majoritariamente por homens. Para Karina, além da preparação exigida para qualquer árbitro, as mulheres ainda precisam enfrentar situações nas quais sua capacidade é questionada.

 

“O desafio é enfrentado dia após dia. Tem uma frase que escuto bastante: ‘Já é difícil para eles, imagina para nós’. E, infelizmente, é verdade”, relata.

 

Segundo ela, o trabalho não termina na preparação técnica e física. Em determinados momentos, é necessário também conquistar a confiança e o respeito das pessoas envolvidas nas partidas.

 

“Além de fazer tudo o que tem que ser feito para se tornar uma árbitra, ainda temos que conquistar o respeito e a confiança de alguns para poder trabalhar, mostrar que somos tão capazes para o serviço como qualquer outra pessoa”, afirma.

 

Karina relata que já passou por situações de machismo dentro e fora de campo. Para enfrentar esses episódios, destaca a importância do apoio familiar e do acompanhamento psicológico.

 

“Já passei por situações muito delicadas dentro e fora de campo, de machismo, mas, com o apoio emocional da família, que é superimportante, e com a ajuda do trabalho psicológico, isso ajuda a manter a calma e seguir com o objetivo de alcançar voos mais altos”, diz.

 

A preparação para uma partida também ocupa parte significativa da rotina. De acordo com Karina, a arbitragem exige treinamento contínuo, cuidados com alimentação e sono, acompanhamento psicológico e organização da rotina. Como a atividade ainda não é sua única ocupação profissional, ela precisa conciliar a preparação com o trabalho.

 

“A preparação é intensa e contínua todos os dias”, afirma.

 

Na parte física, o treinamento envolve não apenas a corrida, mas também os deslocamentos específicos realizados pela arbitragem durante uma partida. A ideia é aproximar os exercícios das situações encontradas dentro de campo.

 

“Além do trabalho físico específico para o tipo de corrida, também tem o trabalho de deslocamento da árbitra dentro de campo, se aproximando ao máximo possível de uma partida real de futebol”, explica.

 

Quando recebe uma escala, a preparação passa a incluir também o estudo da partida e das equipes envolvidas. Karina busca informações sobre o estilo de jogo, o comportamento de atletas e comissões técnicas, a situação da competição e o local onde a partida será realizada.

 

“Quando recebemos uma escala, no mesmo instante começa a preparação da árbitra para a partida: estudar como jogam as equipes, como são os comportamentos dos atletas e da comissão técnica, que momento está o campeonato, onde vai ser o jogo e já mentalizar como será o clima dessa partida antes mesmo de ir para o estádio”, conta.

 

O controle emocional também faz parte dessa preparação. Para manter a concentração antes dos jogos, cada árbitro encontra uma maneira própria de lidar com a ansiedade e a pressão.

 

“O mental vai de cada um, mas sempre procuramos algo para manter a calma: ler um livro, escutar música, ficar em silêncio”, explica.

 

Antes de chegar ao futebol de campo, Karina também construiu sua experiência na arbitragem de futsal. Atualmente, porém, não atua mais na modalidade. Para ela, a principal diferença entre as duas atividades está no espaço de jogo e na intensidade das partidas.

 

“Minha carreira começou no futsal. A principal diferença, além das regras, é o espaço onde é praticada a modalidade. É a intensidade dos jogos. O futsal acontece com um lance em cima do outro praticamente. Já no futebol existem alguns momentos de toque de bola da equipe que permitem dar uma respirada”, compara.

 

Entre as partidas que marcaram sua trajetória, duas experiências são destacadas. A primeira foi sua estreia em uma escala nacional, quando viajou para Santa Catarina para trabalhar em uma partida do Campeonato Brasileiro Feminino A1, principal divisão nacional do futebol feminino.

 

“O primeiro é a primeira escala nacional, onde eu viajo até Santa Catarina para cumprir uma escala do Brasileiro Feminino A1, a elite do futebol feminino”, lembra.

 

O segundo momento citado por Karina foi a final da seletiva Sub-20 realizada em Mato Grosso do Sul. A partida teve um significado específico por colocá-la como árbitra de uma decisão de campeonato masculino no Estado.

 

“O segundo é a final da Seletiva Sub-20 do nosso Estado, onde estava quebrando barreiras por ser uma mulher apitando uma final de campeonato masculino no MS”, afirma.

 

Durante os jogos, a pressão de jogadores, treinadores e torcedores faz parte da rotina. Karina afirma que a experiência como atleta contribuiu para desenvolver uma forma própria de concentração. Segundo ela, em determinados momentos da partida, consegue manter o foco a ponto de não perceber algumas manifestações externas.

 

“Eu já tenho um bloqueio psicológico natural desde quando eu jogava. Então, em alguns momentos da partida, estou tão focada na partida que não escuto algumas pessoas falando coisas horríveis”, relata.

 

A árbitra também considera que a pressão pode contribuir para a concentração durante o jogo.

 

“Sobre a pressão, sem ela não trabalhamos. Às vezes comentamos que é até gostoso ter a ‘pressão’, porque assim vamos focar mais, estar mais atentos”, afirma.

 

Para Karina, a participação feminina na arbitragem tem aumentado, mas ainda existem obstáculos relacionados à percepção sobre a capacidade das mulheres dentro do futebol.

 

“Sim”, responde ao avaliar se o espaço para as mulheres na arbitragem cresceu nos últimos anos. Para ela, houve mudança na maneira como parte das pessoas ligadas ao esporte observa a presença feminina.

 

“A maneira como as pessoas olham, principalmente as pessoas mais conhecidas nesse meio, para a mulher no âmbito esportivo mudou. Ainda temos que provar que somos tão capazes como qualquer outro homem”, destaca.

 

A experiência acumulada também fez com que Karina identificasse algumas características necessárias para quem deseja seguir na arbitragem. Entre elas estão paciência, controle emocional, preparação física, conhecimento das regras e capacidade de tomar decisões rapidamente.

 

“Seguir carreira nesse meio tem que ter muita paciência, pois nem tudo é como desejamos às vezes, controle emocional, preparação física extrema, domínio técnico absoluto, que é o principal, e tomar decisões rápidas”, resume.

 

A preparação física, segundo ela, ganhou ainda mais importância diante da intensidade do futebol atual. A arbitragem exige deslocamento constante e capacidade de acompanhar as jogadas durante toda a partida.

 

“Hoje pode dizer que corremos mais que os atletas”, comenta.

 

Depois de três anos no quadro nacional, Karina pretende ampliar sua participação nas competições organizadas pela CBF. O objetivo é conquistar cada vez mais espaço e, futuramente, buscar a possibilidade de integrar o quadro internacional.

 

“Meus próximos objetivos são continuar trabalhando para ter ainda mais espaço no quadro nacional e, futuramente, sonhar com o escudo FIFA e alcançar voos em competições gigantes, tanto na modalidade feminina quanto na masculina”, projeta.

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