Da Redaçao
“Qualquer esporte que te leva a extrair o máximo do seu corpo poderá te trazer riscos.” A frase do fisioterapeuta e fisiculturista Lucas Ajiki Lopes resume bem a forma direta e sem romantização com que ele enxerga tanto o esporte de alto rendimento quanto a saúde. Natural de Campo Grande, nascido em 27 de janeiro de 2000, Lucas construiu sua atuação profissional em um ponto de interseção ainda pouco explorado no imaginário popular: a fisioterapia aplicada à realidade de quem treina forte, compete ou simplesmente não quer abrir mão da atividade física, mesmo diante da dor.
Apesar de hoje atuar com segurança na área, a fisioterapia não foi uma escolha óbvia no início. “Até antes da faculdade eu não conhecia muito bem a fisioterapia, para ser sincero. Basicamente não tinha noção alguma da área”, admite. A primeira aprovação foi em Engenharia Ambiental, na UFMS, mas a desistência veio antes mesmo do início das aulas. Sem a possibilidade de ingressar em medicina ou educação física naquele momento, a fisioterapia surgiu como alternativa. “Após completar o primeiro ano, eu já tive certeza que gostaria de continuar nele até o fim.”
Paralelamente à formação acadêmica, o esporte sempre esteve presente. Lucas relata que foi fisicamente ativo durante toda a adolescência, passando por diversas modalidades. O contato mais intenso com a musculação veio entre 2018 e 2019, período em que também começou a se aproximar do fisiculturismo. A ideia de competir ganhou forma a partir da amizade com Luiz Fernando, conhecido como Luiz 4D. “Veio o desejo de subir aos palcos, e em 2022 fiz a minha estreia. Até então, nenhuma outra modalidade havia me deixado tão eufórico quanto a primeira vez que subi num palco de fisiculturismo.”
A vivência como atleta moldou diretamente a forma como Lucas enxerga o atendimento clínico, inclusive com pacientes que não competem. Segundo ele, a principal contribuição está na forma de lidar com disciplina e organização. “No fisiculturismo é exigida uma disciplina enorme para conciliar tudo com a vida pessoal, e a partir disso eu vejo que posso ajudar os pacientes que estão com dificuldades nesses aspectos.” Mais do que protocolos rígidos, ele aposta em empatia e adaptação. “Por gostar muito de treinar, sinto que possuo mais empatia com o fato de a maioria estar impossibilitada de praticar seus esportes como gostaria.”
Essa visão se reflete em uma postura que foge do senso comum. Lucas afirma que não costuma proibir atividades durante o tratamento. “Fiquei conhecido por não proibir nada, mas sim ajustar tudo de forma que ninguém precise deixar de treinar.” Para ele, afastar completamente o paciente daquilo que faz parte da sua rotina pode ser mais prejudicial do que benéfico, desde que haja ajustes responsáveis.
Quando o assunto é fisiculturismo, Lucas chama atenção para o preconceito que ainda cerca a modalidade. Embora reconheça os riscos, ele pondera que não são exclusivos do esporte. “Qualquer esporte que te leva a extrair o máximo do seu corpo poderá te trazer riscos. Seja no futebol, corrida, crossfit”, afirma. Na avaliação dele, o fisiculturismo acaba sendo mais criticado, mesmo quando os níveis de exigência física são semelhantes aos de outras modalidades já socialmente aceitas.
Na prática clínica, entretanto, o perfil dos pacientes é diverso. Lucas explica que atende poucos fisiculturistas. A maioria pratica musculação, corrida ou crossfit. Ainda assim, há um padrão nas queixas. “As condições que mais atendo são dores ou lesões crônicas na lombar, quadril, ombro e joelho.” Ele ressalta que não existe uma causa única para o surgimento das dores. “Existem muitos fatores envolvidos. Sempre que seu corpo for submetido a algo para o qual ele não esteja preparado, é fato que dali pode surgir algum incômodo, dor ou lesão.”
A distinção entre treinar para performance e treinar para longevidade também aparece de forma clara em sua fala. “O treino por performance irá extrair sempre ao seu máximo, o que acelera o desgaste do corpo.” Para Lucas, experimentar períodos focados em desempenho pode trazer ganhos, desde que não seja uma condição permanente para quem não vive do esporte. “Não é algo que precisará sustentar por muito tempo. Depois disso, continue treinando pela sua saúde.”
Sobre a cultura de “empurrar a dor”, ele observa uma mudança gradual de mentalidade. “Cada vez mais o nível de consciência das pessoas está aumentando, de forma que a dor passa a ser entendida como um freio natural.” Ainda assim, reconhece que no alto rendimento, estratégias de analgesia são comuns. “Para um atleta, muitas vezes será necessário aplicar técnicas para permitir a performance máxima, mas a conta chega depois.” Na avaliação dele, respeitar a dor é o caminho mais seguro fora do contexto competitivo.
A fisioterapia preventiva, segundo Lucas, tem papel decisivo na carreira de atletas. “Basicamente corrigindo fatores de risco que podem encurtar a carreira.” Ele cita como exemplo a biomecânica de aterrissagem em esportes com salto e a sobrecarga gerada no joelho quando o quadril não é bem utilizado. “Se isso é avaliado e corrigido, podemos diminuir as probabilidades de lesão.”
Entre os erros mais comuns observados no consultório, Lucas aponta a tentativa constante de apenas eliminar a dor, sem entender sua origem. Ele usa uma metáfora simples para explicar. “É como um carro sempre com o pneu furado. Você conserta, mas nunca percebe que o problema está no caminho.” Segundo ele, o fisioterapeuta não apenas corrige, mas também orienta. “Eu sou o mecânico do corpo que corrige o problema e ensina como ‘dirigir’ para que ele não volte.”
A própria rotina de treinos também precisou ser ajustada ao longo do tempo. “Tive que ouvir os sinais do meu corpo, ajustar treino, carga e técnica.” Para Lucas, a dor não é totalmente evitável. “Ela é um alerta que faz parte do nosso dia a dia. O ponto principal é saber interpretar o que ela quer dizer.”
Ao falar com quem está começando no fisiculturismo ou na musculação intensa, o conselho é direto: acompanhamento multidisciplinar. “Profissional de educação física, nutricionista, médico, psicólogo e fisioterapeuta. Cada um tem um papel fundamental.” Para ele, o autoconhecimento é a principal ferramenta de prevenção. “Quanto mais você entende sobre o seu próprio corpo, menor a chance de se machucar.”