Da Redação
O judô sempre fez parte da vida de Giovane Cano. O professor, que começou no tatame aos dois anos influenciado pelo pai, também professor da modalidade, transformou o que era uma atividade da infância em caminho profissional. Ele conta que a transição aconteceu sem pressão. “Inicialmente era uma atividade esportiva, mas rapidamente se transformou em algo muito maior. Meu pai sempre soube lidar bem com isso. Teve momentos em que eu fazia outras modalidades e treinava menos judô, mas nunca deixei de treinar”, relembra.
A ideia de que o judô poderia ser mais do que prática esportiva surgiu quando passou a ensinar. Foi na convivência com os alunos que percebeu o impacto da arte marcial no comportamento e no desenvolvimento das crianças e adolescentes. “Entendi que poderia ser minha profissão quando comecei a ensinar e vi o impacto positivo do judô na disciplina e na autoestima. Ainda mais com um exemplo inspirador como meu pai.”
Para ele, o judô cumpre papel importante na formação integral de crianças e jovens, especialmente em Mato Grosso do Sul. O estado, marcado por desigualdades regionais e desafios sociais, encontra na modalidade uma ferramenta de equilíbrio e orientação. Giovane explica que o judô contribui para o desenvolvimento físico, emocional e social. “Ajuda a afastar crianças de situações de risco e a aproximá-las de valores positivos.”
Esses valores são trabalhados diariamente no dojô e vão além da técnica. O professor destaca que o judô desenvolve “respeito, disciplina, humildade, autocontrole, responsabilidade e perseverança”. Segundo ele, os alunos aprendem a lidar com vitórias e derrotas e a compreender que “a constância traz resultados”. Esse aprendizado, acrescenta, ultrapassa o tatame e se reflete na vida familiar, escolar e social.
Apesar do potencial transformador, manter projetos de judô em Mato Grosso do Sul envolve desafios. Giovane aponta dificuldades financeiras, falta de apoio e custos elevados para quem está no interior. “Os principais desafios envolvem a falta de apoio financeiro, a dificuldade de acesso a patrocínios e os custos com viagens e competições, principalmente para nós que somos do interior.”
Mesmo assim, ele enxerga avanço no cenário estadual. O número de praticantes tem aumentado, assim como o interesse de professores em buscar qualificação. “Há um aumento significativo no trabalho de base e uma melhora na organização das entidades esportivas. Ainda há muito a evoluir, mas os avanços são visíveis”, avalia.
A vivência no tatame também rende histórias que reforçam o alcance social da modalidade. Giovane cita situações recorrentes que considera marcantes. “As mais comuns são ver crianças que não interagiam ou eram muito introvertidas se soltando e socializando melhor. Muitos elogios chegam dos pais e da escola sobre a melhora no comportamento.” Ele destaca que acompanhar a evolução pessoal dos alunos é uma das grandes motivações da profissão. “Ver um aluno evoluir não apenas tecnicamente, mas também como pessoa, é uma das maiores recompensas. E, apesar de ser novo perto de muitos professores, já tenho histórias muito boas no esporte.”
Para além da formação individual, o judô tem papel social reconhecido. O professor explica que o ambiente é igual para todos, independentemente da origem dos alunos. “O judô promove inclusão social ao oferecer oportunidades iguais dentro do tatame. Ele cria um ambiente de pertencimento, fortalece vínculos familiares e comunitários e incentiva a convivência respeitosa.” A modalidade, diz, pode criar perspectivas de futuro e afastar crianças e adolescentes de ambientes de risco.
O trabalho com atletas iniciantes também recebe atenção especial. A base se apoia no desenvolvimento motor, técnico e emocional, respeitando o tempo de cada aluno. Para aqueles que desejam competir, o processo inclui treinos específicos e acompanhamento próximo. “O mais importante é garantir que a competição seja uma extensão do processo educativo, e não uma fonte de pressão”, afirma.
Sobre seus próprios objetivos, Giovane mantém a linha educacional acima do competitivo. Ele quer fortalecer o judô em sua cidade e continuar formando pessoas. “Meus objetivos como sensei envolvem fortalecer ainda mais o judô e formar pessoas boas, gentis e educadas.” Para os alunos, deseja que a modalidade abra portas em diferentes áreas. “Que o judô abra portas, seja no alto rendimento, na educação ou na vida pessoal, e que levem tudo o que aprendem no tatame para a vida.”
Aos pais e jovens que ainda têm dúvidas sobre iniciar na modalidade, o professor reforça que o judô é mais do que um esporte. “O judô é uma ferramenta de educação, formação de caráter e desenvolvimento humano. Ele ensina a cair e levantar, a respeitar o próximo e a acreditar no próprio potencial.”