Da Redação
Aos 48 anos, Simone Godoy Santana Santos continua encontrando no vôlei uma parte da história que começou ainda na juventude, em uma rua de chão, sem saída, onde árvores, postes e até um caminhão ajudavam a sustentar uma rede improvisada. Mais de três décadas depois, ela segue nas quadras e participa da continuidade do Jucae, equipe fundada por um grupo de jovens de Dourados que tinha em comum o interesse pela modalidade.
Nascida em São Paulo, em 27 de novembro de 1977, Simone vive em Dourados desde os dois anos de idade. Professora de inglês da rede pública municipal, ela é casada com Manoel, também fundador do Jucae, e tem uma filha de 21 anos.
Em 2026, o time completou 33 anos. Dos integrantes que participaram da fundação, quatro permanecem ligados à equipe: Simone, o marido Manoel e os amigos Luciano Gomes e Mauro Rocha.
“Hoje já não somos mais tão jovens na idade, mas nosso amor pelo vôlei continua tão vivo como no primeiro dia, no primeiro torneio, no primeiro pódio. A adrenalina é a mesma desde o primeiro set disputado”, conta Simone.
O próprio nome escolhido para a equipe registra a origem do grupo. Jucae significa “Jovens Unidos com Amor ao Esporte”. Antes de receber o nome e os primeiros uniformes, porém, o time começou de maneira improvisada.
“Jucae nasceu antes mesmo de ter nome, em uma rua de chão e sem saída, com rede improvisada, amarrada em árvores e postes. Até o caminhão servia como suporte”, relembra.
Um dos primeiros registros da trajetória ocorreu em 1º de maio de 1993, quando o grupo participou de um torneio realizado na Escola Francisco Meireles. O Jucae terminou a competição na terceira colocação. O prêmio recebido naquela ocasião permanece guardado por Simone.
“Ficamos em terceiro lugar, mas comemoramos como se fôssemos campeões. O troféu era um pouco maior que a minha mão e recebemos duas medalhas. Esse troféu guardo até hoje, porque ele representa o nascimento não só de um time, mas do enredo da minha história”, afirma.
A relação pessoal de Simone com a equipe ultrapassou as quadras. Foi por meio do grupo que ela construiu amizades e conheceu Manoel, com quem se casou. Para ela, a convivência criada pelo esporte ajuda a explicar a permanência da equipe ao longo das décadas.
“Do Jucae veio meu casamento, meus melhores amigos e muitas histórias para contar”, resume.
Nos primeiros anos, o Jucae reunia homens e mulheres de diferentes idades. Não havia treinador, e os integrantes se encontravam para jogar, participar de competições e organizar os próprios torneios. Parte dos eventos esportivos era promovida por grupos de jovens e associações de moradores.
O envolvimento também alcançava atividades fora das quadras. Segundo Simone, integrantes do time participaram de ações realizadas por associações de bairros, atividades comunitárias e iniciativas de clubes de mães. O próprio Jucae organizava torneios abertos e disputas entre seus integrantes.
“Independentemente de quem ganhasse, comemorávamos todos juntos. Geralmente acabava em guaraná, cachorro-quente, vanerão e uns flashbacks. Acredito que essa relação fora de quadra que o vôlei proporcionou é o que nos motiva a manter o Jucae até hoje”, relata.
A participação das famílias acompanha o grupo desde o início. O primeiro uniforme, por exemplo, foi produzido pelas mães dos jogadores. As camisetas eram amarelas e receberam o nome da equipe de maneira artesanal, com tinta para tecido e moldes de letras.
Com o passar dos anos, novas gerações passaram a participar das atividades. Filhos e sobrinhos dos integrantes começaram a dividir as quadras com aqueles que participaram dos primeiros anos da equipe.
“Hoje temos a oportunidade de ver nossos filhos e sobrinhos jogando conosco. Talvez esse laço familiar seja o que mantém o Jucae por três décadas”, avalia Simone.
A trajetória também teve períodos de interrupção. Um deles ocorreu durante a pandemia de Covid-19, quando as atividades esportivas coletivas precisaram ser suspensas. Depois da retomada, os encontros voltaram a reunir diferentes equipes. Segundo Simone, houve período em que sete times participavam das atividades em um único domingo.
Atualmente, a organização passou por mudanças. Simone é responsável pelo Jucae feminino, que reúne, em média, 21 mulheres e realiza dois treinamentos por semana. A diferença de idade entre as integrantes é uma das características do grupo: a mais nova tem 13 anos, enquanto a mais velha está próxima dos 60.
Além dos treinamentos, a equipe participa de amistosos e competições. Neste ano, o Jucae disputa a Super Liga Feminina de Dourados, competição que reúne dez equipes.
O masculino ficou sob responsabilidade de Luciano Gomes, conhecido entre os jogadores como “Vovô”. O grupo não mantém uma rotina de treinamentos, mas continua participando de torneios e amistosos.
“Luciano, um dos fundadores, é uma pessoa muito importante para o Jucae. Se um dia puderem ouvir a história dele, de como o vôlei e o nosso time transformaram sua vida, vale a pena”, afirma Simone.
Ao falar sobre os efeitos da modalidade, Simone destaca aspectos que aprendeu durante os anos dentro e fora das quadras. Para ela, disciplina, convivência e comprometimento estão entre os aprendizados proporcionados pelo esporte.
“O que mais me encanta é como o vôlei pode impactar vidas e transformar histórias. Dentro de quadra, ensina disciplina, coletividade, entrosamento e comprometimento. Os laços criados dentro de quadra vão se fortalecendo fora, e amizades vão sendo construídas”, diz.
Simone também aponta o crescimento do vôlei amador em Dourados e cita o trabalho realizado por equipes que surgiram em ruas e praças. Entre os nomes lembrados por ela está Rudi, do time IPV, responsável pela organização de torneios e quadrangulares masculinos e femininos nos últimos anos.
“Se hoje o vôlei vem ganhando força em Dourados, é graças também aos times amadores, times que nasceram nas ruas e nas praças”, afirma.
Segundo Simone, atualmente existem cerca de dez equipes amadoras femininas e masculinas na cidade. Ela também relata crescimento no número de centros destinados a treinamentos. Por vários anos, segundo a atleta, havia apenas um espaço desse tipo, enquanto outros três surgiram neste ano.
Apesar do aumento da procura pela modalidade, Simone aponta a disponibilidade de locais para treinamento como uma das dificuldades enfrentadas pelos grupos amadores.
“Infelizmente, não temos muito apoio por parte do poder público. Um dos nossos maiores desafios é ter local para treinar ou jogar. Outra coisa que me preocupa são as escolas. Talvez por sermos o país do futebol, o vôlei seja pouco valorizado e ensinado”, afirma.
Aos 33 anos, o Jucae também começa uma nova etapa. Simone trabalha na formação do Jucae Master feminino, destinado a atletas com 40 anos ou mais. A equipe participou recentemente de seu primeiro torneio e terminou na terceira colocação, repetindo a posição alcançada pelo grupo na competição de 1993.
“Esse fim de semana participamos do nosso primeiro torneio, e a história se repetiu: também teve pódio e, novamente, terceiro lugar. Que seja um novo marco em minha vida, como foi há 33 anos”, diz.
Os planos de Simone incluem ainda ampliar a presença de novas gerações na equipe. Entre os projetos está a criação do Jucae Teen, voltado aos mais jovens.
Para quem começou jogando com uma rede improvisada em uma rua de chão e hoje divide a quadra com atletas de diferentes gerações, a intenção é manter o nome criado na juventude em atividade.
“Ainda quero ver em quadra o Jucae Teen, com a esperança de que o Jucae continue firme por mais uns 60 anos”, projeta Simone.