Da Redação
“Um dos maiores desafios enfrentados por atletas do estado do MS é a falta de oportunidades”. A frase dita por Matheus Henryque Calossa dos Santos, mais conhecido como Calossa, resume não apenas um obstáculo pessoal, mas uma realidade recorrente para jovens atletas sul-mato-grossenses que buscam espaço no voleibol de alto rendimento.
Nascido em 30 de setembro de 2006, Calossa teve o primeiro contato com o vôlei ainda na escola, de forma despretensiosa, durante o recreio. “Desde criança eu sempre fui muito familiarizado com o esporte. O vôlei começou na minha vida em meio à escola, onde fazíamos rodinha para brincar no horário do recreio. Daí comecei a tomar gosto e fui à procura de um lugar onde fornecia treinamentos”, relembra.
O que começou como brincadeira rapidamente despertou um interesse maior. Segundo ele, a forma como o esporte era praticado mudou sua percepção. “Encantado com o esporte, a maneira como era praticada me fez ter uma visão diferente e me fez questionar de que forma eu poderia levar adiante a vida como atleta de vôlei”. Naquele momento, no entanto, o futuro ainda era incerto. “Como iniciante, nunca passava pela minha cabeça o que me aguardaria mais à frente”, conta.
A evolução veio acompanhada de aprendizados duros. Calossa reconhece que o processo de formação exigiu correções constantes. “Já bati muita cabeça com meus professores, mas sei que cada puxão de orelha foi essencial”. Com foco, treinamento e disposição para aprender, surgiram oportunidades que mudaram seu cenário esportivo. Ainda com 17 anos, passou a integrar a equipe adulta da Série A do Campeonato Paranaense. “Eu não imaginava que teria uma grande oportunidade de crescer profissionalmente e participar de um dos campeonatos mais fortes das categorias de base no Paraná e, ainda com 17 anos, compor a equipe adulta do Paranaense”.
Apesar do avanço fora do estado, o atleta faz uma leitura crítica do contexto sul-mato-grossense. Para ele, a escassez de competições e de apoio institucional compromete o desenvolvimento de talentos locais. “Não são muitos campeonatos organizados pela federação do MS. Há muitos atletas bons pelo estado afora, porém com pouca ajuda para se desenvolver, tanto na questão da renda quanto no deslocamento”. Segundo Calossa, esse cenário limita o acesso às oportunidades. “Esse é um dos grandes problemas enfrentados”.
A rotina de treinos, segundo ele, é um dos pilares para se manter competitivo. “Uma das minhas rotinas essenciais para se manter em alto nível é cuidar do físico e respeitar os limites do corpo”. Além do vôlei de quadra, Calossa também atua no vôlei de praia, modalidade que exige maior intensidade física. “Pratico também o vôlei de praia, onde se exige muito da parte física. Vou à academia pelo menos três vezes na semana para fazer funcional e treino de força adaptado”.
A alimentação também faz parte do processo. “O nosso corpo é o que a gente come, então uma boa alimentação é essencial, porém de vez em quando dá uma escapada”, diz, ao comentar com naturalidade sobre o equilíbrio entre disciplina e rotina. Além disso, os treinos de areia são diários, com o retorno gradual às atividades em quadra.
Ao falar sobre sua evolução técnica e mental, Calossa destaca nomes que foram determinantes. “Tenho três pessoas que foram cruciais para minha virada de chave”. Entre elas, os treinadores Diego Maldonado e Bruno Seggato, além de Edson Santos, atleta profissional e amigo pessoal. “Essas três pessoas elevaram meu nível, me fizeram pensar de uma forma diferente e refinaram minhas técnicas no vôlei”.
As temporadas de 2024 e 2025 ficaram marcadas por jogos de alta pressão. “Foram anos repletos de emoção e jogos difíceis, onde a respiração fica mais ofegante, a pressão toma conta do corpo e a mente fica apreensiva”. Dois confrontos, em especial, permanecem vivos na memória do atleta. Um deles no vôlei de praia, quando enfrentou na final a mesma dupla que havia derrotado sua equipe na fase classificatória. “Foi um jogo muito difícil, em que superamos a dupla, e a vitória foi conquistada com muito esforço e suor dentro de quadra”.
O outro momento marcante ocorreu no Paranaense Adulto. “Foi um campeonato com uma equipe muito especial, onde superávamos nossos adversários na questão tática e na vontade. Apesar de tudo, terminamos entre os quatro melhores do estado”.
Sobre a pressão por resultados, Calossa avalia que o caráter coletivo do vôlei ajuda a diluir responsabilidades. “Sempre existe expectativa e pressão em cima dos atletas, mas o vôlei é um esporte coletivo, então tem onde se apoiar, tornando às vezes mais fácil”.
Ao analisar o cenário regional, ele aponta falhas estruturais na formação de base. “Faltam mais campeonatos de base importantes. As competições são subdivididas em idades como 08, 09 e 10. No sub-17, muitos atletas de 2004 e 2005 ficaram sem seus últimos anos de disputa”. Para ele, a criação de torneios sub-21 poderia ampliar o alcance do esporte. “Creio que se a federação abrisse novos campeonatos nesse formato traria mais visibilidade ao estado”.
Calossa também menciona a concentração de projetos em grandes centros. “Os grandes projetos de escola de vôlei estão somente em polos maiores. Isso dificulta muito para atletas que não têm condição de se deslocar ou participar desses campeonatos”.
Fora das quadras, o impacto do esporte vai além do rendimento. “O esporte impactou na minha vida de várias formas. Conheci lugares onde não pensaria em ir e pessoas que agregaram muito à minha vida. Amizades e vivências extraordinárias viajando pelo esporte que tanto amo”.
Os planos para o futuro passam pela continuidade no esporte e pela troca de conhecimento. “Meu principal objetivo a curto e médio prazo é levar o esporte como um todo, ajudando pessoas que querem iniciar ou já praticam. Levar minha essência e minha energia para dentro de quadra”.
Para quem sonha em seguir o mesmo caminho, o recado é direto. “É preciso muita insistência. O vôlei é constância: quanto mais o básico você pratica, mais você aprende. Antes de inovar, vem o básico bem feito. Tem que ter persistência e lutar, porque uma hora o seu momento chega”.