Da Redação
“O tatame não forma apenas atletas, forma caráter.” A frase resume a relação de Paulo Chama com as artes marciais após décadas dedicadas ao judô e ao jiu-jitsu. Faixa preta nas duas modalidades, ele construiu uma trajetória marcada por disciplina, competições, superação física e transformação pessoal.
A ligação com o esporte começou ainda na infância, quando morava na Paraíba. Aos 7 anos, em 2001, iniciou no judô por orientação relacionada à saúde. O que seria apenas uma atividade logo se tornou parte central de sua vida.
“Próximo à minha casa havia uma escola de judô, o Judô Faustino. Um dia, fui assistir a um campeonato para conhecer a modalidade e, quando vi as projeções, o clima da competição e as torcidas vibrando, fiquei completamente fascinado”, relembra.
Depois daquela experiência, Paulo participou de uma aula experimental e não se afastou mais do tatame.
“Quando pisei no tatame e comecei a aprender os primeiros golpes, foi algo viciante. Logo vieram os primeiros campeonatos e, 25 anos depois, continuo apaixonado por tudo o que o judô representa na minha vida.”
Anos mais tarde, o jiu-jitsu também entrou em sua rotina. O primeiro contato ocorreu em João Pessoa, quando tinha entre 13 e 14 anos, após convite de um amigo. Em uma academia da Gracie Barra, conheceu uma modalidade que ampliaria sua visão sobre luta.
“O jiu-jitsu me encantou pelo jogo mental, pela estratégia, algo diferente do judô, apesar das semelhanças. Aquilo me desafiou e me instigou a evoluir.”
A partir dali, passou a treinar as duas modalidades em paralelo. Segundo ele, a combinação dos conhecimentos trouxe vantagens também em competições.
“Muitas vezes conseguia levar vantagem utilizando conhecimentos do jiu-jitsu em lutas duras.”
Ao longo da trajetória, Paulo alcançou a faixa preta nas duas artes marciais. Para ele, cada graduação representa um momento diferente da vida.
“A faixa preta no judô representa a realização de uma vida inteira dedicada ao esporte. O sentimento naquele momento foi muito claro: não era o fim, mas o começo de uma nova fase.”
Ele afirma que, desde criança, imaginava o dia em que usaria a faixa preta, mas entendeu com o tempo que a conquista significava também novas responsabilidades.
“Hoje entendo que foi ali que comecei, de fato, a aprender o verdadeiro judô.”
No jiu-jitsu, o processo teve outro significado. Apesar de ter começado ainda jovem, a dedicação mais consistente veio após a chegada a Mato Grosso do Sul, em 2010.
“Passei a valorizar cada etapa do processo, cada faixa, cada aprendizado. O jiu-jitsu me ensinou a crescer com consciência, dentro e fora do tatame.”
Nem tudo, porém, foi continuidade. Em 2016, Paulo enfrentou o período mais difícil da carreira esportiva ao sofrer um grave acidente de moto. As consequências incluíram lesões nos dois joelhos, três cirurgias e duas hérnias de disco.
“Naquele momento, achei que nunca mais pisaria em um tatame.”
O afastamento forçado trouxe impacto físico e emocional. Mesmo assim, ele encontrou meios para retornar.
“Foram tempos difíceis, de muita dor, não só física, mas emocional, por estar afastado daquilo que sempre foi minha paixão. Mas, com fé em Deus e muita persistência, consegui me recuperar.”
Hoje, segue treinando, ainda que com limitações. Ele relata, inclusive, uma situação curiosa.
“Mesmo com algumas limitações, sigo treinando e me dedicando com excelência. De forma curiosa, o judô e o jiu-jitsu são as únicas atividades em que não sinto dor.”
Para além do resultado esportivo, Paulo afirma que os maiores ganhos vieram na formação humana. Segundo ele, a rotina de treinos, vitórias e derrotas ajudou a moldar sua forma de agir diante dos desafios.
“O principal ensinamento é o controle emocional: manter a calma sob pressão. Além disso, a resiliência, cair, levantar e continuar, é algo que levo para todas as áreas da vida, seja nos negócios ou na vida pessoal.”
Ao analisar o cenário estadual, ele vê evolução nas modalidades de combate em Mato Grosso do Sul. Na avaliação do atleta, o nível técnico aumentou nos últimos anos.
“Vejo um crescimento positivo. O nível técnico dos atletas está cada vez mais elevado e a visibilidade do esporte vem aumentando. Ainda existem desafios, principalmente em relação a apoio e investimento, mas o Estado tem potencial enorme e muitos talentos surgindo.”
Entre as lembranças de competição, uma das mais marcantes aconteceu em 2006, no Campeonato Brasileiro Estudantil, em Alagoas. Na ocasião, conquistou o terceiro lugar.
“Por ser a primeira experiência em um cenário maior, foi algo muito especial.”
Ao falar com crianças e jovens que desejam seguir nas artes marciais, Paulo resume sua visão em uma mensagem de permanência e constância.
“Você não precisa ser o mais forte, nem o mais talentoso, mas precisa ser aquele que não desiste.”
Para ele, a formação de um atleta começa justamente nos momentos de dificuldade.
“Nas artes marciais, você vai cair muitas vezes. Vai perder, vai se frustrar e, em alguns momentos, vai pensar em parar. Mas é exatamente nesses momentos que os verdadeiros campeões são formados.”
E encerra com a frase que considera essencial para qualquer caminhada dentro ou fora do esporte:
“Quem permanece, vence.”