Quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026, 19:04

“O futebol nos salvou de muitos caminhos errados”, diz goleiro indígena de Caarapó

da redação - 25 de fev de 2026 às 16:58 18 Views 0 Comentários
“O futebol nos salvou de muitos caminhos errados”, diz goleiro indígena de Caarapó Da Redação

“Um dia esse mesmo futebol nos salvou de muitos caminhos errados.” A frase resume a relação de Heliton de Oliveira Cavanha, 26 anos, com o esporte. Nascido em 7 de maio de 1999, no município de Caarapó, na comunidade indígena Tey’ikuê, ele construiu sua trajetória no futebol amador de Mato Grosso do Sul a partir das quadras e campos da escola.

 

A aproximação com o esporte começou ainda na infância, ao observar outros jovens indígenas da comunidade disputando competições fora da aldeia. “Foi na época escolar, quando vi jovens indígenas da comunidade saindo para disputar jogos em outras cidades e trazendo troféus para a comunidade e para a nossa escola”, relata. Segundo ele, a recepção aos atletas e às conquistas marcou sua decisão. “Quando vi os troféus e a alegria da comunidade escolar recebendo eles, eu quis encarar também essa realidade.”

 

O início foi discreto. “Comecei a ir aos treinos escondido da minha mãe”, conta. O que era curiosidade e admiração se transformou em rotina de treinos e participação em campeonatos. Atuando como goleiro, Heliton seguiu no futebol mesmo após ouvir que não se encaixava no padrão esperado para a posição.

 

Um dos episódios que mais o marcou foi uma peneira em que recebeu resposta negativa. “Realizar uma peneira e ouvir um não, pois sou goleiro de 1,65m, ou seja, não era apto a estar ali. Mesmo assim, até hoje estou embaixo das traves.” A recusa, segundo ele, não encerrou a trajetória. Ao contrário, reforçou a permanência no esporte amador.

 

Para Heliton, o futebol vai além da competição. “Representa respeito e salvação. O futebol nos fortalece como pessoa, fazemos amizades, nos livra dos caminhos errados e une as pessoas. Com certeza, isso a gente leva para a vida toda.” A vivência nos campeonatos de bairro e regionais também o colocou em contato com diferentes realidades dentro do estado.

 

Entre os momentos mais lembrados estão os Jogos de Verão na comunidade indígena de Amambai e um campeonato de futsal disputado pela equipe 19 de Abril, de Dourados. “Jogamos com sete jogadores, chegamos à final na raça e exaustos e, infelizmente, ficamos na segunda colocação.” Mesmo sem o título, ele aponta a campanha como referência de superação coletiva.

 

A rotina no futebol amador, segundo Heliton, envolve desafios estruturais. “A falta de estrutura é presente em todos os lugares. Muitos organizadores realizam as atividades com apoio de amigos e da própria comunidade esportiva.” Ele destaca ainda a ausência de planejamento contínuo. “O principal desafio hoje é a falta de incentivo esportivo anual, talvez um calendário esportivo.”

 

Apesar das limitações, o cenário da várzea sul-mato-grossense mantém competições consolidadas. “As premiações têm sido um marco no futebol de várzea, com premiações chamativas. Hoje temos vários campeonatos em Mato Grosso do Sul que já criaram raiz e respeito”, afirma.

 

Conciliar trabalho, família e jogos exige organização. “Me programo para os dias de jogos, e minha família sempre me apoiou a estar presente.” O suporte também veio de professores que acompanharam seu desenvolvimento desde a escola. “Meus professores Vinicius, Elias e o nosso eterno professor Joarez são pessoas admiráveis, que sempre nos apoiaram nos treinos e nos jogos.”

 

Ao falar com jovens que iniciam no futebol amador, Heliton retoma a ideia central de sua própria experiência. “Não desistir. O futebol são momentos. Há dias bons e ruins, vitórias e derrotas, mas sempre devemos nos lembrar que um dia esse mesmo futebol nos salvou de muitos caminhos errados.”

 

Entre os objetivos, ele cita o desejo de conquistar um título com o Mixto Conveniência FC, equipe que considera seu time do coração. “Já estou onde queria estar. Tenho respeito e admiração de muitas pessoas do esporte”, afirma. Ao mesmo tempo, amplia o foco para além da própria trajetória. “Sonho com uma coisa: que todos os esportes olhassem também para as comunidades indígenas. Tem muitos talentos nas aldeias indígenas de Mato Grosso do Sul.”

Comentários

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos com * são obrigatórios.