Da Redação
Aos 11 anos, Alessandra Laura de Matos Souza entrou em uma quadra de basquete quase por acaso. Três décadas depois do primeiro contato com a modalidade e após passar anos longe dos treinamentos, a personal trainer retornou ao esporte, voltou a disputar competições e, aos 41 anos, integra o CGR-Basket, equipe feminina criada em Campo Grande. Depois do terceiro lugar nos Jogos Abertos da Capital, o grupo se prepara para disputar o Campeonato Estadual, previsto para outubro, em Maracaju.
Nascida em Campo Grande, no dia 19 de setembro de 1985, Alessandra conheceu o basquete quando estudava na Escola Estadual 26 de Agosto. Na época, o professor Rodrigo de Paula entrou na sala convidando alunos para participarem dos treinamentos no período da tarde. Inicialmente, ela não pretendia aceitar o convite.
“Eu tinha 11 anos e estudava na Escola Estadual 26 de Agosto. Um belo dia, entrou um professor na sala chamando os alunos para irem à tarde treinar basquete. Seu nome era Rodrigo de Paula, hoje técnico da Unigran. A princípio, não me interessei, pois tenho apenas 1,57 metro de altura”, recorda.
A decisão mudou por influência de uma amiga e vizinha, que também queria participar dos treinamentos. Como as duas precisavam ir a pé, os pais da amiga permitiram que ela participasse desde que estivesse acompanhada por Alessandra.
“Falei com a minha mãe e ela autorizou, desde que eu tivesse notas boas. Então, embarquei na aventura de jogar basquete. Gostei tanto que queria ir todos os dias, não queria faltar a nenhum treino. Acredito que o que mais me fez amar o basquete foi o desafio. Uma pequenininha como eu era desafiada todos os dias, tanto pela altura quanto pelas estratégias e tomadas de decisão rápidas que são necessárias. Eu simplesmente me encontrei ali”, conta.
Durante o período escolar, Alessandra participou de jogos escolares e de campeonatos fora de Campo Grande. A primeira passagem pelo esporte, porém, terminou ainda na adolescência.
Ela jogou dos 11 aos 15 anos e, ao concluir o Ensino Médio, precisou direcionar a atenção para o trabalho. Sem uma bolsa de estudos para cursar uma faculdade, começou a trabalhar para contribuir com as despesas de casa.
“Eu não era a ‘melhor jogadora’ do time, então não ganhei bolsa de estudos para a faculdade. Terminei o terceiro ano e já comecei a trabalhar para ajudar em casa. O basquete não fez mais parte da minha vida por algum tempo”, relata.
Mesmo distante das quadras, as experiências vividas por meio do esporte influenciaram a escolha profissional de Alessandra. Ela decidiu cursar Educação Física com o objetivo inicial de trabalhar com crianças e também ensinar basquete.
“O basquete fez aquela menina de 11 anos, de escola pública, aprender muito sobre a vida. A transformação que aquele professor me proporcionou me fez querer mudar a vida de outras pessoas também. Então, decidi que faria faculdade de Educação Física e também daria treino de basquete, pois queria transmitir e proporcionar às crianças as mesmas experiências que eu tive”, afirma.
Depois de formada, Alessandra não conseguiu inicialmente trabalhar em escola e recebeu uma oportunidade em uma academia. Foi quando conheceu Roberto Mateus, proprietário da Academia Art & Manha, que a contratou mesmo sem experiência na área.
“Não era a área que eu tinha escolhido, mas, depois que iniciei meus trabalhos e conheci o Roberto Mateus, que me deu a oportunidade de que eu precisava, me apaixonei pela área de academia, musculação e personal trainer”, explica.
Em 2016, Alessandra conseguiu trabalhar com treinamento na rede municipal. Permaneceu na atividade por dois anos, mas uma mudança de bairro tornou o deslocamento até a escola onde trabalhava inviável. Sem carro e fazendo os trajetos de bicicleta, deixou a função e passou a se dedicar ao trabalho como personal trainer.
O basquete, no entanto, permaneceu presente. A aproximação com jogadores e ex-jogadores da modalidade abriu caminho para que Alessandra voltasse a participar de partidas e competições.
“Na época, não havia muitos times femininos. As meninas se juntavam, cada uma de uma cidade, formavam um time e jogavam o campeonato em um final de semana. Conheci muitas pessoas, e o basquete continuou me proporcionando momentos e amizades”, diz.
O retorno aos treinamentos de forma regular ocorreu em 2024, depois de mais de duas décadas da primeira experiência com a modalidade e após a maternidade. Alessandra passou a integrar o Sevilha, treinando duas vezes por semana e participando de campeonatos em Campo Grande e em outras cidades de Mato Grosso do Sul.
Em 2026, uma nova etapa começou com a criação do CGR-Basket. Com aproximadamente dois meses de formação, a equipe disputou sua primeira competição nos Jogos Abertos de Campo Grande e terminou na terceira colocação.
“Sem dúvida, a competição que mais me marcou foi a última, o terceiro lugar nos Jogos Abertos de Campo Grande pela equipe do CGR-Basket. É um time que foi criado há pouco tempo. Jogamos apenas três jogos, mas a evolução que tivemos do primeiro para o terceiro foi enorme, tanto taticamente quanto no entrosamento”, afirma.
Alessandra também destaca a própria evolução desde o retorno. “Ver a evolução dessa equipe e poder estar em quadra durante 70% da partida, ajudando meu time a chegar a esse resultado, me deixa muito feliz. A minha evolução técnica também me proporciona essa sensação de estar no caminho certo.”
Agora, o CGR-Basket se prepara para o Campeonato Estadual, que será realizado em outubro, em Maracaju. Na competição, as atletas representarão o Ultimate, equipe que já participa de competições no Estado, mas não contava com um time feminino.
“Com a criação desse novo time, voltou aquela vontade que eu tinha aos 11 anos de estar nas quadras, defender uma equipe, uma família, e dar o meu melhor para ajudar o time na busca por um pódio”, diz.
O retorno ao esporte também exigiu uma reorganização da rotina. Além do trabalho como personal trainer, Alessandra divide o tempo entre os compromissos familiares e os cuidados com o filho Heitor, de 4 anos.
“A vida do personal trainer é bem corrida, porém temos a vantagem da flexibilidade de horários. Às vezes, conseguimos encaixar os treinos dos alunos em outro dia ou horário para estar presentes nas competições. Meus alunos são companheiros e me ajudam com isso. Para os meus treinos, precisa ser sempre mais à noite, depois que já atendi minha agenda, organizei a casa e dividi as tarefas diárias com meu esposo em relação aos cuidados com o Heitor”, explica.
A experiência profissional também passou a ser utilizada na própria preparação para as competições. Atualmente, Alessandra faz musculação três vezes por semana, treinamento funcional duas vezes e treinos específicos de basquete entre duas e três vezes por semana.
O trabalho funcional é direcionado a capacidades utilizadas dentro da quadra, como impulsão, agilidade, velocidade e resistência. Segundo ela, a preparação já trouxe mudanças no tempo em que consegue permanecer em jogo.
“Consegui conciliar a rotina de casa, maternidade, trabalho, treinos e condicionamento físico somente neste ano. Hoje, devido à minha graduação, consegui preparar uma rotina de treinos de força na academia e funcional para trabalhar o fortalecimento muscular e o condicionamento cardiorrespiratório para dar conta de jogar. Ainda estou em uma fase inicial, mas já vi resultados. Antes não conseguia ficar em quadra por três minutos e hoje já consigo chegar aos seis minutos e, dependendo do jogo, até aos dez minutos do quarto”, relata.
Além do basquete tradicional, Alessandra começou a disputar competições de basquete 3x3 em 2026. A intenção é continuar participando da modalidade e ampliar o calendário de competições a partir de 2027, incluindo torneios das categorias 40+, adulto e 3x3.
Para ela, um dos obstáculos enfrentados pelo basquete feminino em Mato Grosso do Sul é justamente o número reduzido de equipes e, consequentemente, de competições.
“A falta de equipes femininas é um dos principais desafios. Até a criação do CGR-Basket, tínhamos poucas equipes. Devido ao número pequeno de times, não temos muitos campeonatos, o que vai fazendo com que as meninas comecem a desmotivar. A falta de apoio ao esporte e ao basquete como um todo também é um dos desafios que temos”, afirma.
A dificuldade para encontrar locais de treinamento também faz parte da rotina das equipes. Alessandra cita a necessidade de ampliar a disponibilidade de quadras e incentivar a formação de times em diferentes regiões da cidade.
“Nós procuramos montar o CGR-Basket na região do Aero Rancho porque sabíamos que havia mulheres que jogavam e moravam naquela região, mas para quem ficava difícil e caro atravessar a cidade para treinar em outras equipes. Precisamos ter mais competições femininas e mais apoio, principalmente com quadras acessíveis para treinamento. Hoje é muito difícil conseguir uma quadra para treinar e, quando conseguimos, o aluguel não é tão barato”, aponta.
Aos 41 anos, Alessandra projeta ampliar a participação em competições. Ela chegou a receber um convite da amiga Samanta para disputar o Campeonato Brasileiro 40+ neste ano, mas não poderá participar porque o marido terá uma competição na mesma data e ela ficará responsável pelo filho.
“Para 2027 estarei pronta para o Regional, Brasileiro e todos os campeonatos que aparecerem, seja 40+, adulto ou 3x3. Dizem que a fase depois dos 40 anos é a melhor e estou achando que é mesmo. Agora vou ter novas experiências com o basquete em nível nacional que não consegui ter quando era jovem”, afirma.
Antes disso, o objetivo está voltado ao Estadual de outubro. “Meu próximo objetivo é conseguirmos trazer uma medalha do Campeonato Estadual com nosso time recém-criado, melhorar minha técnica e meu condicionamento físico para colaborar com bons resultados para a equipe.”
Os planos também passam pela profissão. Alessandra pretende aproximar ainda mais o trabalho como personal trainer da experiência adquirida no esporte.
“Como profissional, quero abranger mais a área do esporte, criando uma cartela de clientes voltada para condicionamento físico e fortalecimento para melhorar os resultados em suas modalidades, além de continuar ajudando as pessoas na qualidade de vida e no cuidado com a saúde”, finaliza.