Sexta-feira, 16 de outubro de 2026, 01:25

“O basquete me fez aprender muito sobre a vida”: Alessandra transforma experiência nas quadras em profissão

da Redação - 1 de out de 2026 às 15:26 100 Views 0 Comentários
“O basquete me fez aprender muito sobre a vida”: Alessandra transforma experiência nas quadras em profissão Da Redação

Aos 11 anos, Alessandra Laura de Matos Souza entrou em uma quadra de basquete quase por acaso. Três décadas depois do primeiro contato com a modalidade e após passar anos longe dos treinamentos, a personal trainer retornou ao esporte, voltou a disputar competições e, aos 41 anos, integra o CGR-Basket, equipe feminina criada em Campo Grande. Depois do terceiro lugar nos Jogos Abertos da Capital, o grupo se prepara para disputar o Campeonato Estadual, previsto para outubro, em Maracaju.

 

Nascida em Campo Grande, no dia 19 de setembro de 1985, Alessandra conheceu o basquete quando estudava na Escola Estadual 26 de Agosto. Na época, o professor Rodrigo de Paula entrou na sala convidando alunos para participarem dos treinamentos no período da tarde. Inicialmente, ela não pretendia aceitar o convite.

 

“Eu tinha 11 anos e estudava na Escola Estadual 26 de Agosto. Um belo dia, entrou um professor na sala chamando os alunos para irem à tarde treinar basquete. Seu nome era Rodrigo de Paula, hoje técnico da Unigran. A princípio, não me interessei, pois tenho apenas 1,57 metro de altura”, recorda.

 

A decisão mudou por influência de uma amiga e vizinha, que também queria participar dos treinamentos. Como as duas precisavam ir a pé, os pais da amiga permitiram que ela participasse desde que estivesse acompanhada por Alessandra.

 

“Falei com a minha mãe e ela autorizou, desde que eu tivesse notas boas. Então, embarquei na aventura de jogar basquete. Gostei tanto que queria ir todos os dias, não queria faltar a nenhum treino. Acredito que o que mais me fez amar o basquete foi o desafio. Uma pequenininha como eu era desafiada todos os dias, tanto pela altura quanto pelas estratégias e tomadas de decisão rápidas que são necessárias. Eu simplesmente me encontrei ali”, conta.

 

Durante o período escolar, Alessandra participou de jogos escolares e de campeonatos fora de Campo Grande. A primeira passagem pelo esporte, porém, terminou ainda na adolescência.

 

Ela jogou dos 11 aos 15 anos e, ao concluir o Ensino Médio, precisou direcionar a atenção para o trabalho. Sem uma bolsa de estudos para cursar uma faculdade, começou a trabalhar para contribuir com as despesas de casa.

 

“Eu não era a ‘melhor jogadora’ do time, então não ganhei bolsa de estudos para a faculdade. Terminei o terceiro ano e já comecei a trabalhar para ajudar em casa. O basquete não fez mais parte da minha vida por algum tempo”, relata.

 

Mesmo distante das quadras, as experiências vividas por meio do esporte influenciaram a escolha profissional de Alessandra. Ela decidiu cursar Educação Física com o objetivo inicial de trabalhar com crianças e também ensinar basquete.

 

“O basquete fez aquela menina de 11 anos, de escola pública, aprender muito sobre a vida. A transformação que aquele professor me proporcionou me fez querer mudar a vida de outras pessoas também. Então, decidi que faria faculdade de Educação Física e também daria treino de basquete, pois queria transmitir e proporcionar às crianças as mesmas experiências que eu tive”, afirma.

 

Depois de formada, Alessandra não conseguiu inicialmente trabalhar em escola e recebeu uma oportunidade em uma academia. Foi quando conheceu Roberto Mateus, proprietário da Academia Art & Manha, que a contratou mesmo sem experiência na área.

 

“Não era a área que eu tinha escolhido, mas, depois que iniciei meus trabalhos e conheci o Roberto Mateus, que me deu a oportunidade de que eu precisava, me apaixonei pela área de academia, musculação e personal trainer”, explica.

 

Em 2016, Alessandra conseguiu trabalhar com treinamento na rede municipal. Permaneceu na atividade por dois anos, mas uma mudança de bairro tornou o deslocamento até a escola onde trabalhava inviável. Sem carro e fazendo os trajetos de bicicleta, deixou a função e passou a se dedicar ao trabalho como personal trainer.

 

O basquete, no entanto, permaneceu presente. A aproximação com jogadores e ex-jogadores da modalidade abriu caminho para que Alessandra voltasse a participar de partidas e competições.

 

“Na época, não havia muitos times femininos. As meninas se juntavam, cada uma de uma cidade, formavam um time e jogavam o campeonato em um final de semana. Conheci muitas pessoas, e o basquete continuou me proporcionando momentos e amizades”, diz.

 

O retorno aos treinamentos de forma regular ocorreu em 2024, depois de mais de duas décadas da primeira experiência com a modalidade e após a maternidade. Alessandra passou a integrar o Sevilha, treinando duas vezes por semana e participando de campeonatos em Campo Grande e em outras cidades de Mato Grosso do Sul.

 

Em 2026, uma nova etapa começou com a criação do CGR-Basket. Com aproximadamente dois meses de formação, a equipe disputou sua primeira competição nos Jogos Abertos de Campo Grande e terminou na terceira colocação.

 

“Sem dúvida, a competição que mais me marcou foi a última, o terceiro lugar nos Jogos Abertos de Campo Grande pela equipe do CGR-Basket. É um time que foi criado há pouco tempo. Jogamos apenas três jogos, mas a evolução que tivemos do primeiro para o terceiro foi enorme, tanto taticamente quanto no entrosamento”, afirma.

 

Alessandra também destaca a própria evolução desde o retorno. “Ver a evolução dessa equipe e poder estar em quadra durante 70% da partida, ajudando meu time a chegar a esse resultado, me deixa muito feliz. A minha evolução técnica também me proporciona essa sensação de estar no caminho certo.”

 

Agora, o CGR-Basket se prepara para o Campeonato Estadual, que será realizado em outubro, em Maracaju. Na competição, as atletas representarão o Ultimate, equipe que já participa de competições no Estado, mas não contava com um time feminino.

 

“Com a criação desse novo time, voltou aquela vontade que eu tinha aos 11 anos de estar nas quadras, defender uma equipe, uma família, e dar o meu melhor para ajudar o time na busca por um pódio”, diz.

 

O retorno ao esporte também exigiu uma reorganização da rotina. Além do trabalho como personal trainer, Alessandra divide o tempo entre os compromissos familiares e os cuidados com o filho Heitor, de 4 anos.

 

“A vida do personal trainer é bem corrida, porém temos a vantagem da flexibilidade de horários. Às vezes, conseguimos encaixar os treinos dos alunos em outro dia ou horário para estar presentes nas competições. Meus alunos são companheiros e me ajudam com isso. Para os meus treinos, precisa ser sempre mais à noite, depois que já atendi minha agenda, organizei a casa e dividi as tarefas diárias com meu esposo em relação aos cuidados com o Heitor”, explica.

 

A experiência profissional também passou a ser utilizada na própria preparação para as competições. Atualmente, Alessandra faz musculação três vezes por semana, treinamento funcional duas vezes e treinos específicos de basquete entre duas e três vezes por semana.

 

O trabalho funcional é direcionado a capacidades utilizadas dentro da quadra, como impulsão, agilidade, velocidade e resistência. Segundo ela, a preparação já trouxe mudanças no tempo em que consegue permanecer em jogo.

 

“Consegui conciliar a rotina de casa, maternidade, trabalho, treinos e condicionamento físico somente neste ano. Hoje, devido à minha graduação, consegui preparar uma rotina de treinos de força na academia e funcional para trabalhar o fortalecimento muscular e o condicionamento cardiorrespiratório para dar conta de jogar. Ainda estou em uma fase inicial, mas já vi resultados. Antes não conseguia ficar em quadra por três minutos e hoje já consigo chegar aos seis minutos e, dependendo do jogo, até aos dez minutos do quarto”, relata.

 

Além do basquete tradicional, Alessandra começou a disputar competições de basquete 3x3 em 2026. A intenção é continuar participando da modalidade e ampliar o calendário de competições a partir de 2027, incluindo torneios das categorias 40+, adulto e 3x3.

 

Para ela, um dos obstáculos enfrentados pelo basquete feminino em Mato Grosso do Sul é justamente o número reduzido de equipes e, consequentemente, de competições.

 

“A falta de equipes femininas é um dos principais desafios. Até a criação do CGR-Basket, tínhamos poucas equipes. Devido ao número pequeno de times, não temos muitos campeonatos, o que vai fazendo com que as meninas comecem a desmotivar. A falta de apoio ao esporte e ao basquete como um todo também é um dos desafios que temos”, afirma.

 

A dificuldade para encontrar locais de treinamento também faz parte da rotina das equipes. Alessandra cita a necessidade de ampliar a disponibilidade de quadras e incentivar a formação de times em diferentes regiões da cidade.

 

“Nós procuramos montar o CGR-Basket na região do Aero Rancho porque sabíamos que havia mulheres que jogavam e moravam naquela região, mas para quem ficava difícil e caro atravessar a cidade para treinar em outras equipes. Precisamos ter mais competições femininas e mais apoio, principalmente com quadras acessíveis para treinamento. Hoje é muito difícil conseguir uma quadra para treinar e, quando conseguimos, o aluguel não é tão barato”, aponta.

 

Aos 41 anos, Alessandra projeta ampliar a participação em competições. Ela chegou a receber um convite da amiga Samanta para disputar o Campeonato Brasileiro 40+ neste ano, mas não poderá participar porque o marido terá uma competição na mesma data e ela ficará responsável pelo filho.

 

“Para 2027 estarei pronta para o Regional, Brasileiro e todos os campeonatos que aparecerem, seja 40+, adulto ou 3x3. Dizem que a fase depois dos 40 anos é a melhor e estou achando que é mesmo. Agora vou ter novas experiências com o basquete em nível nacional que não consegui ter quando era jovem”, afirma.

 

Antes disso, o objetivo está voltado ao Estadual de outubro. “Meu próximo objetivo é conseguirmos trazer uma medalha do Campeonato Estadual com nosso time recém-criado, melhorar minha técnica e meu condicionamento físico para colaborar com bons resultados para a equipe.”

 

Os planos também passam pela profissão. Alessandra pretende aproximar ainda mais o trabalho como personal trainer da experiência adquirida no esporte.

 

“Como profissional, quero abranger mais a área do esporte, criando uma cartela de clientes voltada para condicionamento físico e fortalecimento para melhorar os resultados em suas modalidades, além de continuar ajudando as pessoas na qualidade de vida e no cuidado com a saúde”, finaliza.

Comentários

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos com * são obrigatórios.