Da Redação
“Eu desejo chegar, patinando, na minha velhice”. A frase resume a relação de Sergio Murilo Ferreira Borges Prestes, conhecido apenas como Murilo, com a patinação. Natural de Belém (PA), ele encontrou no esporte não apenas uma prática de lazer, mas um estilo de vida que hoje compartilha com dezenas de alunos em Campo Grande.
Murilo nasceu em 15 de julho de 1997 e começou a patinar em 2015, na capital paraense. Segundo ele, tudo surgiu ao observar um grupo que se reunia semanalmente próximo à sua casa.
“O nome McFly, na verdade, advém do meu primeiro grupo, no qual eu iniciei em 2015. Esse grupo era referência em patinação de velocidade em Belém. Eu tomei a decisão de iniciar devido a ver a galera se reunir toda semana na esquina da minha casa, e eu não fazia ideia desse universo”, contou.
A ligação com o grupo foi tão marcante que continuou mesmo após a mudança para Mato Grosso do Sul. “Tive que sair de Belém transbordando aquela energia do grupo e nunca esqueço de um dos membros me pedindo para dar continuidade ao ser McFly onde eu estivesse”.
Murilo chegou a Campo Grande em 2017 e percebeu diferenças na forma como a patinação era praticada na cidade. Ele afirma que já trazia consigo uma vivência voltada para a rua e para percursos urbanos.
“Na época não tinha pessoas com meu estilo de patinação. Eu realmente respirava andar na rua, principalmente à noite, entre os carros, descendo qualquer ladeira. Essa vibe de ‘loucura’ já era intrínseca à minha semana”.
Apesar de já praticar o esporte desde antes, foi somente após o período da pandemia que ele começou a se aproximar mais da comunidade local e a estruturar as aulas.
“Tudo começa a acontecer a partir do fim da pandemia. Desejando que mais pessoas patinassem comigo, eu passei a me envolver mais com a galera existente na cidade e, aos pouquinhos, fui estabelecendo a minha essência”.
Hoje, Murilo afirma ter mais de 60 alunos, sendo cerca de 25 adultos. Segundo ele, os motivos que levam adultos e crianças para as aulas costumam ser diferentes.
“Com toda certeza, entre os adultos, quem me busca são apenas três perfis: quem deseja realizar o sonho que nunca aconteceu; quem precisa sair do sedentarismo e não gosta das vias tradicionais; e quem vem motivado por amigos ou familiares”.
Já no caso das crianças, ele diz que os motivos variam bastante. “Tem até os que começam por obrigação dos pais e depois desenvolvem o gosto. Então, sempre nas primeiras aulas, preciso entender como vou lidar com cada novo aluno”.
Murilo explica que cada pessoa possui um ritmo próprio de aprendizado e que a adaptação da metodologia faz parte do processo de ensino.
“Muitos aprendem a ficar em pé e não cair tão facilmente já em uma ou duas aulas. Outros demoram semanas. Para aprender a frear, é a mesma coisa. Eu não enxergo dificuldades em passar a técnica para meus alunos, porém a aplicação muda, e preciso entender no ato o que meu aluno está fazendo de errado”.
Além do ensino técnico, ele afirma que busca incentivar os alunos a enxergarem a patinação como algo contínuo.
“Se depender de mim, todos os meus alunos terão um olhar mais apurado para a técnica, a ponto de levar a patinação para a vida e, quem desejar, também para o lado esportivo”.
Mesmo com o crescimento do grupo, Murilo aponta a falta de estrutura adequada para a modalidade em Campo Grande. Atualmente, os encontros e treinamentos acontecem em locais compartilhados com outras atividades.
“Não existe estrutura nenhuma adequada e direcionada para o patins em Campo Grande. Hoje fazemos uso de espaços públicos como o Parque dos Poderes e pistas de skate, tendo que compartilhar espaço com outras modalidades que representam certo perigo para quem está iniciando”.
Segundo ele, o ideal seria a construção de um patinódromo, espaço específico para a prática da modalidade.
“O ideal seria termos um circuito conhecido como patinódromo, focado apenas nos patinadores, com uma parte plana no centro dedicada aos iniciantes”.
Além das aulas, o grupo McFly também promove viagens em grupo para encontros com patinadores de outros estados.
“Todo ano fazemos alguma viagem em grupo, com quem realmente vive o esporte, para conhecer grupos de outros estados e podermos vivenciar novas experiências que só o patins traz”.
Murilo afirma que Campo Grande ainda não possui estrutura para competições relacionadas às modalidades que pratica, o que faz com que muitos eventos aconteçam fora do Estado.
“Hoje, Campo Grande ainda não tem condições de estruturar competições nos segmentos em que eu tenho habilidades. Então, resta viajar por lazer ou em busca de competir”.
Entre os benefícios observados ao longo dos anos, ele destaca questões ligadas à saúde física, emocional e socialização.
“Essa prática esportiva auxilia na produção de endorfina. Um adulto que se dedica acaba desligando dos problemas e vivendo o momento. Dominar um esporte difícil é um baita exercício para a autoestima”.
As histórias vividas pelos alunos são apontadas por ele como uma das maiores motivações para continuar trabalhando com a modalidade.
“Tenho aluno que perdeu mais de 20 quilos patinando; alunos que se curaram da depressão; crianças que se tornaram mais leves para socializar; casal que eu vi se acidentar junto e, um ano depois, dá show de patinação; pais que se aproximaram ainda mais dos filhos porque decidiram viver o esporte juntos”.
Ele também relembra o caso de um aluno acima dos 60 anos que enfrentou problemas de saúde antes de começar a praticar.
“Um senhor com mais de 60 anos venceu um câncer na medula óssea, perdeu os movimentos e hoje patina muito”.
Para quem deseja começar no esporte, Murilo afirma que o principal é manter a constância e buscar orientação adequada.
“O essencial é possuir seu patins e proteções, ir com calma e praticar sempre que possível. Sem exagero, porém constante”.
Vivendo exclusivamente da patinação, ele afirma que o principal objetivo é continuar sendo reconhecido pelo impacto causado na vida das pessoas.
“Minha meta é apenas poder ser reconhecido por transformar vidas. Poder ser lembrado por famílias, onde quer que estejam patinando, será gratificante ao longo da minha vida”.
Entre os desejos para o futuro, Murilo sonha com melhorias estruturais para a prática da modalidade em Campo Grande e com mais espaço para os patinadores em eventos esportivos.
“Eu desejo muito poder ver nossa cidade com asfalto de qualidade para a modalidade de rua, a ponto de trazer conjuntamente às maratonas de corrida um espaço para patinadores que desejarem vir de outros estados e conhecer nossa cidade pantaneira”.
Enquanto isso, segue mantendo a mesma relação construída ainda em Belém, há mais de dez anos: a de alguém que pretende continuar sobre rodas pelo maior tempo possível.
“Eu desejo chegar, patinando, na minha velhice. Essa será minha grande superação”.