Sábado, 14 de fevereiro de 2026, 15:03

Futebol como responsabilidade: a visão de um atleta formado em Mato Grosso do Sul

da redação - 2 de fev de 2026 às 16:04 58 Views 0 Comentários
Futebol como responsabilidade: a visão de um atleta formado em Mato Grosso do Sul Da Redação

“Quando cheguei ao Sub-17, vi que aquilo ali já não era mais uma brincadeira, e sim o futuro da minha família.” A frase dita por Saulo Felipe Marinho do Nascimento, zagueiro sul-mato-grossense de 19 anos, sintetiza o ponto em que o sonho passou a ter peso de responsabilidade. Natural de Campo Grande, nascido em 10 de agosto de 2006, ele representa uma geração de atletas que cresce em meio à escassez de investimentos, estruturas limitadas e poucas oportunidades de visibilidade no futebol de Mato Grosso do Sul.

 

Na avaliação de Saulo, o estado possui talentos em número suficiente para disputar espaço em níveis mais altos do futebol nacional, mas esbarra em fatores estruturais que impedem a continuidade de muitos jovens no esporte. “Aqui no estado tem grandes talentos, porém há muito pouco investimento financeiro, o que acaba dificultando muitos atletas a continuarem jogando”, afirma. Para ele, a falta de recursos compromete não apenas o desenvolvimento técnico, mas também a permanência de atletas promissores nas categorias de base.

 

A passagem para o Sub-17 marcou uma mudança definitiva na forma como passou a enxergar a carreira. Segundo o zagueiro, foi nesse momento que o futebol deixou de ser apenas um desejo de infância e passou a ser encarado como um projeto de vida. “Foi quando eu cheguei no Sub-17 e via que aquilo ali já não era mais uma brincadeira, e sim o futuro da minha família”, relata. A partir daí, a rotina passou a ser moldada por cobranças, metas e pela necessidade de dar retorno dentro de campo.

 

Atuar em Mato Grosso do Sul, no entanto, trouxe obstáculos que vão além das quatro linhas. Saulo aponta uma sequência de dificuldades enfrentadas ao longo do caminho. “Falta de investimento, falta de olheiros, falta de apoio dos clubes e falta de estrutura”, enumera. A ausência de observadores e competições com maior projeção nacional, segundo ele, limita as chances de atletas locais serem vistos e negociados.

 

Apesar das barreiras, o futebol também trouxe aprendizados que extrapolam o resultado das partidas. “Me ensinou a fazer grandes amizades e grandes aprendizados, como nunca desistir de algo ou sempre se esforçar para conseguir”, diz. Valores como persistência e convivência coletiva são apontados pelo atleta como parte fundamental da formação, mesmo em um ambiente marcado por incertezas.

 

Entre os momentos mais marcantes da carreira, Saulo destaca uma eliminação que influenciou sua forma de pensar o jogo. “Teve sim. Quartas de final do Estadual Sub-17, contra a AEFA, no Douradão, onde a gente foi muito superior no jogo e, mesmo assim, saímos derrotados”, recorda. Para ele, a partida reforçou que o futebol nem sempre recompensa o desempenho apresentado e que lidar com frustrações faz parte do processo de amadurecimento esportivo.

 

A avaliação sobre a estrutura oferecida aos atletas no estado é direta. “Avalio como fraca. Precisa evoluir muito em todos os aspectos para, quem sabe um dia, sonhar em chegar a uma Série B ou até, quem sabe, Série A”, analisa. Na visão do zagueiro, sem investimentos consistentes em formação, calendário e infraestrutura, o futebol sul-mato-grossense segue distante dos principais centros do país.

 

A pressão psicológica também aparece como um elemento constante na rotina do atleta. Saulo descreve um cenário de autocrítica permanente. “Pressão psicológica é normal no esporte. Você se cobra muito dentro dele: ‘será que vai dar certo?’, ‘será que eu estou no lugar certo?’, ‘será que é isso que vai dar certo na minha vida?’. Um monte de perguntas que fica martelando o dia inteiro na cabeça do atleta”, relata. O peso das decisões e a instabilidade da carreira fazem parte do cotidiano, especialmente para quem tenta se firmar longe dos grandes centros.

 

Dentro de campo, Saulo se define a partir da função que exerce. “Como eu sou zagueiro, procuro sempre a liderança do time para poder extrair o melhor de cada companheiro. Porém, sou extremamente competitivo e odeio o gosto da derrota”, afirma. A busca por organização defensiva e comando do setor é acompanhada por um perfil marcado pela competitividade.

 

Defender clubes e representar Mato Grosso do Sul tem um significado especial para o atleta. “Representa algo extraordinário. Seria ainda melhor se a gente tivesse mais oportunidades de representar o nosso estado em competições internacionais”, projeta. Para ele, ampliar a presença do estado em torneios de maior alcance é fundamental para dar visibilidade aos atletas formados localmente.

 

Ao falar sobre o futuro, Saulo revela a motivação mais profunda que sustenta sua permanência no futebol. “O que me motiva a continuar é uma promessa que fiz para meu pai antes dele falecer, de que iria realizar esse nosso sonho. Infelizmente, agora estou entre o trabalho e o sonho”, conta. Ele lembra que o apoio familiar foi constante enquanto o pai era vivo. “Antes dele ir, ele me apoiava dia e noite nesse sonho, e tenho essa promessa com ele ainda”, conclui.

Comentários

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos com * são obrigatórios.