Da Redação
A discussão sobre formação no futebol brasileiro costuma girar em torno de resultados, rankings e conquistas. Para o treinador sul-mato-grossense Flávio Nóbrega, no entanto, esse caminho nem sempre aponta para o que realmente importa. “Quando eu entendi que, na base, a busca por títulos atrapalha o surgimento de jogadores bons”, ele afirma, ao explicar uma mudança decisiva na forma como passou a enxergar o trabalho com crianças e adolescentes.
Segundo Flávio, o futebol precisa ser pensado desde o início, ainda longe dos holofotes. “O futebol começa pela base, nos projetos e nas escolinhas”, destaca. Para ele, é nesse ambiente que se constrói não apenas o atleta, mas também a relação do jovem com o esporte. A preocupação excessiva com vencer campeonatos nas categorias iniciais, na sua avaliação, pode comprometer o desenvolvimento técnico e humano dos jogadores.
Dentro desse processo, o futsal ocupa um papel central. Flávio aponta a modalidade como um dos pilares da formação. “O futsal é fundamental e serve como base técnica. O futebol é a continuação, com ênfase na tática”, explica. Na prática, ele entende que o futsal contribui para a tomada de decisão rápida, o domínio de bola e a leitura de jogo, enquanto o campo amplia essas capacidades dentro de um contexto coletivo mais complexo.
Ao falar sobre o perfil do atleta sul-mato-grossense, Flávio é direto. “A rusticidade”, resume. Para ele, essa característica reflete tanto aspectos culturais quanto as condições em que muitos jovens iniciam no esporte. Ao mesmo tempo, aponta que a falta de estrutura ainda é um entrave recorrente. “A estrutura financeira” é, segundo ele, uma das principais dificuldades enfrentadas por projetos e equipes no estado.
Essa limitação, no entanto, não pode servir como justificativa para trabalhos superficiais. Flávio defende que a motivação do atleta vai além de discursos pontuais. “A motivação vem do dia a dia, vem do despertar de sentimentos”, afirma. Na visão do treinador, o vínculo cotidiano entre comissão técnica e atletas é determinante para manter o engajamento e a evolução, mesmo em cenários adversos.
Para ele, o papel do treinador ultrapassa o aspecto esportivo. “É uma das atribuições do treinador educar e formar cidadãos”, diz. Flávio entende que, especialmente na base, o futebol se torna um espaço de aprendizagem social, onde valores como convivência, responsabilidade e respeito são transmitidos junto com o treino.
Essa lógica também se reflete na maneira como ele analisa a pressão por resultados. “O resultado imediato, muitas vezes exigido, é enganoso e sufoca o bom trabalho a longo prazo”, avalia. Para Flávio, vencer cedo não significa formar melhor, e a cobrança por conquistas rápidas pode levar a escolhas que limitam o crescimento dos atletas.
Ao ser questionado sobre o que move quem deseja seguir carreira no futebol, ele resume em uma pergunta direta: “Você ama o que faz?”. Em seguida, completa: “Porque trabalhar com futebol tem que ser por amor. Se for por dinheiro, não valerá a pena”. Para Flávio Nóbrega, a permanência no esporte, especialmente em contextos fora dos grandes centros, exige convicção e propósito.