Da Redação
Lígia Souza Gonçalves, psicóloga e atleta de crossfit nascida em Naviraí (MS), constrói sua rotina profissional e esportiva a partir da ideia de compromisso consigo mesma. Ela explica que organiza sua agenda de atendimentos e treinos seguindo o mesmo princípio: “Eu encaro o treino como um compromisso comigo mesma, então ele entra na minha rotina com a mesma responsabilidade que tenho com os atendimentos”. Para ela, constância não depende apenas de motivação, mas de disciplina e organização do cotidiano.
O crossfit surgiu inicialmente como uma atividade complementar, praticada ao lado da musculação. Com o tempo, a modalidade deixou de ser apenas um meio de manter o corpo ativo e passou a ter papel central em sua trajetória pessoal. Lígia afirma que o que a manteve no ambiente do crossfit foi o “espírito de comunidade, de família e as amizades construídas ali”, que, segundo ela, tiveram impacto direto na sua evolução dentro do esporte.
A decisão de competir veio em um período marcado por mudanças internas. Ela relata que o processo teve início quando precisou lidar com o acidente grave sofrido por seu pai. Nesse momento, a competição abriu uma nova forma de enfrentar questões emocionais: “A competição surgiu como uma forma de preencher faltas internas e de provar para mim mesma que eu era capaz de ir além”. A partir dessa experiência, ela passou a enxergar a disputa como um espaço de organização subjetiva e não apenas de busca por resultados.
A formação em psicologia se tornou parte do seu olhar sobre o esporte, assim como o esporte passou a atravessar sua prática clínica. Lígia descreve o exercício físico como um “organizador psíquico”, capaz de favorecer o manejo de estresse e ansiedade, fortalecer autoestima e desenvolver habilidades como disciplina e tolerância à frustração. Segundo ela, o corpo se torna um meio de aprender que esforço gera progresso, e esses conteúdos se estendem para outras áreas da vida.
Ao mesmo tempo, sua vivência no crossfit influencia diretamente sua escuta como psicóloga. Ela afirma que compreender na prática aspectos como dor, limite, constância e frustração aprimorou sua atuação profissional. “O crossfit me ensinou que a evolução não é linear e que performance não se sustenta sem escuta do corpo”, diz. Por isso, sua abordagem clínica passou a valorizar o processo tanto quanto o resultado, auxiliando pacientes a lidarem com expectativas, erros e autonomia emocional.
Como atleta, Lígia observa que os maiores desafios emocionais envolvem autocobrança, comparação e medo de falhar. Na própria rotina, ela busca diferenciar rigor de rigidez e sustenta a preparação com metas realistas e atenção aos sinais físicos e emocionais. Para ela, o rendimento só existe quando há equilíbrio entre exigência e cuidado.
Em competições, diz que a mente se torna determinante em diversos momentos. Ela lembra situações em que levantou cargas que não conseguia atingir nos treinos: “Eu via que não conseguia antes não por falta de força, mas pela dúvida sobre a própria capacidade e pela antecipação do fracasso”. Em provas, segundo ela, a ativação emocional muda o padrão de pensamento e permite acessar recursos físicos que já estavam disponíveis, mas que eram bloqueados por inseguranças.
O cenário do crossfit em Mato Grosso do Sul, na avaliação da atleta, vem se ampliando e fortalecendo. Ela aponta que eventos locais ocorrem com maior regularidade e que há participação consistente em campeonatos nacionais. Sobre a presença feminina, Lígia afirma que as mulheres ocupam cada vez mais espaço, assumindo papéis de destaque em boxes, competições e processos de liderança. Para ela, isso transforma a percepção das próprias atletas sobre pertencimento e capacidade.
Outro ponto que considera essencial no esporte é o apoio de familiares e amigos. Ela explica que a rede de suporte contribui para atravessar oscilações emocionais, lidar com fases difíceis e sustentar o propósito. “No esporte de alto nível, ninguém sustenta performance sozinho”, afirma.
Para manter disciplina quando a motivação não aparece, Lígia reforça a importância de ter clareza de propósito e de manter acordos internos que independam do estado emocional do dia. A motivação, segundo ela, se constrói a partir da ação e não o contrário.
Na psicologia, deseja aprofundar seu trabalho com saúde mental e performance, ampliando a integração entre mente e corpo no esporte. Como atleta, pretende continuar evoluindo dentro de suas possibilidades e limitações, buscando amadurecimento competitivo e constância. Ela afirma que enxerga a competição como um “espaço contínuo de autoconhecimento, superação e alinhamento entre corpo e mente”.