Da Redação
“Ou ela comprava um tênis ou uma chuteira para eu ir para a escola. Escolhi a chuteira.” A frase resume um dos momentos que marcaram o início da trajetória de Ryan Francisco de Paiva Bittencourt, jovem atleta nascido em 24 de fevereiro de 2005, em Visconde do Rio Branco (MG), e que construiu sua caminhada no futebol entre Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.
Ryan começou no futsal ainda criança, em escolinhas na cidade de Pará de Minas (MG). Na época, o futebol já era um sonho, mas distante. “Eu era novo, não tinha tanto apoio”, afirma. A mudança para Caarapó (MS) foi determinante para que o objetivo não fosse abandonado. “Ao chegar na cidade de Caarapó, esse sonho não morreu. Foi aí que me empenhei mais para conseguir realizar esse sonho.”
O início, no entanto, foi marcado por dificuldades. Segundo o atleta, questões familiares e financeiras impactaram diretamente sua rotina. “A maior dificuldade para mim foi a separação dos meus pais. Isso afetou a questão familiar sólida que eu acreditava ter. Mas o que dificultou mais foi a questão financeira. Eu não tinha dinheiro para comprar materiais de treino.”
Foi nesse contexto que ocorreu o episódio que ele destaca como simbólico. Sem condições de adquirir itens básicos, precisou fazer uma escolha. “Pedi para minha mãe uma chuteira. Ela não tinha como comprar. Fez um acordo: ou comprava um tênis ou uma chuteira para eu ir para a escola. Escolhi a chuteira e usava a mesma para treinar e ir para a escola.”
A primeira oportunidade de mudança surgiu em uma peneirada na região. “Um dia, o treinador da escolinha falou de uma peneirada de um clube de Dourados que disputava campeonatos estaduais. Foi nesse dia que vi que poderia ser uma virada de chave na minha vida.” Ryan participou da avaliação, se destacou e garantiu vaga na equipe.
Na base, viveu um dos primeiros momentos de destaque ao chegar à final do Campeonato Estadual Sub-17. “Na época, eu tinha 15 anos. Fomos vice e não conseguimos a vaga para a Copa do Brasil, algo que eu sempre almejei.” Ele ainda disputou outras edições da competição antes da descontinuidade da categoria no clube.
Com o fim do Sub-17, passou a ter contato com o elenco profissional, mesmo sem integrar oficialmente o grupo. “Conheci pela primeira vez atletas profissionais que viviam do esporte. Eu treinava com o clube, mas não integrava o grupo.”
Na sequência, surgiu uma nova oportunidade em competições de base fora do Estado. Convocado para um torneio em Rancharia (SP), teve participação direta em momentos decisivos. “No jogo em que precisávamos ganhar ou empatar para classificar, fui colocado e fiz o gol do empate.” Já na disputa pelo terceiro lugar, voltou a contribuir. “Peguei uma bola no fundo e, de esquerda, eu que sou destro, consegui dar a assistência para o gol da vitória.”
De volta a Caarapó, passou a integrar o Sub-20 e relata mudança na forma de encarar o futebol. “Ali entendi o que era futebol de verdade.” Ele cita a chegada da comissão técnica como um ponto de transformação. “O técnico Fernando Lopes e o preparador físico Everton seguiam uma linhagem muito profissional. Desde aí me senti um atleta profissional, com treinos bem elaborados.”
O período, porém, exigiu adaptação fora de campo. “Eu treinava de manhã e à tarde, e à noite trabalhava em uma hamburgueria.” A primeira remuneração no futebol veio nesse contexto. “Quando integrei o elenco profissional, recebia um salário de 600 reais. Aquilo para mim foi incrível: receber para fazer algo que eu tanto amava.”
Após a mudança do clube para Dourados, Ryan ficou um período sem equipe. Em seguida, recebeu proposta para tentar oportunidades em São Paulo. “Fiz alguns treinos e amistosos em clubes como Independente de Limeira, Jabaquara e Assisense.” Apesar das negociações, não houve acerto. “Nenhum clube quis fechar contrato profissional naquele momento.”
A situação levou ao retorno para Caarapó e a uma pausa no futebol. “Voltei a trabalhar e dei uma parada.” A retomada veio de forma inesperada. “Fui chamado para integrar o Sub-20 novamente, para a disputa da Copa do Brasil. Saí do trabalho e pegava ônibus quase todos os dias para ir treinar.”
A participação na competição nacional é apontada como um dos momentos mais marcantes. “Foi algo que eu não imaginava que aconteceria, pois estava em uma fase sem expectativa. Foi naquele momento que recebi a mensagem do diretor do clube e vi que Deus escreve certo por linhas tortas.”
Ao longo da trajetória, Ryan destaca pessoas que contribuíram para sua formação. “O professor Elias foi como um pai para mim. Não apenas lições de futebol, mas também de vida.” Ele também cita treinadores, familiares e a namorada. “Minha mãe sempre lutou e fez de tudo por mim e pela minha irmã.”
Hoje, o atleta mantém o foco na continuidade da carreira. “Meu objetivo atualmente é lutar cada vez mais pela minha vida e da minha família, treinar e conquistar tudo o que eu almejo.” Para jovens que seguem o mesmo caminho, deixa uma orientação direta. “Se você não se entregar totalmente ao objetivo, não vale de nada todo o processo. Foco e resiliência sempre.”