Da Redação
“Eu não espero sobrar tempo, eu faço o tempo acontecer.” A frase resume a rotina de Maisa Michelle Gimenes de Souza, corredora de rua de Mato Grosso do Sul, que encontrou no esporte uma forma de reorganizar a própria vida. Mãe de três filhos, ela construiu na prática um cotidiano em que o cuidado com a saúde precisa dividir espaço com as demandas familiares e profissionais.
Nascida em 20 de maio de 1983, em Caarapó (MS), Michelle iniciou na corrida a partir de uma decisão pessoal voltada à saúde. “A corrida entrou na minha vida quando eu decidi cuidar da minha saúde e emagrecer. Mesmo convivendo com bronquite e falta de ar, eu quis me desafiar. O que parecia impossível virou uma prova diária de superação”, afirma. Com o tempo, a atividade deixou de ser apenas uma tentativa de mudança física e passou a ocupar um papel mais amplo. “Hoje, a corrida é parte de quem eu sou.”
A relação com o esporte também foi impactada pela maternidade. Segundo ela, a necessidade de cuidar dos filhos trouxe uma nova perspectiva sobre autocuidado. “Depois de me tornar mãe, entendi que precisava cuidar de mim também para cuidar deles melhor. A corrida virou meu momento, meu respiro no meio da rotina”, explica. Para além da prática individual, a corredora enxerga na própria rotina uma forma de referência para os filhos. “É um exemplo que quero deixar para eles sobre saúde e disciplina.”
Conciliar treinos com a rotina familiar exige planejamento constante. Michelle destaca que a organização não depende de tempo livre, mas de decisão. “Eu não espero sobrar tempo, eu faço o tempo acontecer. Ajusto os treinos aos horários das crianças, ao meu trabalho e conto com a ajuda do meu marido, da minha mãe e da minha sogra. Nem sempre é fácil, mas é possível.” A estrutura de apoio, segundo ela, é fundamental para manter a regularidade.
Ao longo do processo, a possibilidade de desistência esteve presente em diferentes momentos. “Muitos, principalmente nos dias de cansaço, crises de falta de ar ou quando parecia difícil conciliar tudo”, relata. Ainda assim, a continuidade veio a partir da percepção de evolução. “Cada pequena evolução me lembrava por que comecei. A corrida deixou de ser só estética e virou saúde, força mental e prova de que sou capaz.”
Entre as experiências vividas, a primeira prova ocupa um lugar central. “Sem dúvida, foi a mais marcante. Cruzar a linha de chegada foi a prova de que eu tinha vencido minhas próprias limitações: a bronquite, o medo, a vergonha e a insegurança. Ali eu entendi que não era só sobre correr, era sobre me superar.” O episódio representa, segundo ela, um ponto de virada na forma como passou a encarar o esporte.
A participação da família também se reflete no envolvimento dos filhos com a rotina esportiva. “Eles acompanham tudo, torcem, perguntam dos treinos, vibram nas provas. Isso me emociona muito”, conta. A experiência já se estendeu às crianças. “Eles participaram da corrida kids e gostaram. Sinto que enxergam a corrida como algo positivo.”
Para Michelle, os impactos da corrida vão além da dimensão física. “Ela é meu momento de respiro, de organizar a mente e aliviar o estresse. É onde me reconecto comigo mesma e encontro força para a rotina. A corrida me salva.” A prática, nesse sentido, passa a cumprir uma função de equilíbrio diante das demandas do dia a dia.
Apesar dos avanços na participação feminina no esporte, ela aponta que ainda existem obstáculos. “Ainda enfrentamos o desafio de conciliar muitos papéis e, muitas vezes, lidar com a culpa por tirar um tempo para nós”, afirma. Segundo ela, também há barreiras culturais relacionadas à prioridade dada ao esporte. “Existe a ideia de que ele vem só depois de tudo. Mas cada mulher que persiste mostra que é possível e abre caminho para outras.”
Em relação ao futuro, Michelle estabelece metas ligadas à evolução pessoal dentro da modalidade. “Quero melhorar meus tempos, encarar distâncias maiores e viver provas que hoje ainda parecem desafiadoras. Mas, acima de tudo, quero continuar constante e saudável.” A constância aparece como elemento central dentro do planejamento.
Ao falar com outras mulheres, especialmente mães, ela reforça a importância do início, independentemente das condições. “Não espere o momento perfeito, porque ele não existe. Comece do jeito que dá, no ritmo que for possível. A corrida não exige perfeição, só o primeiro passo.” Para ela, a prática está diretamente ligada à ideia de cuidado pessoal. “Você merece esse cuidado e é mais capaz do que imagina.”