Da Redação
Após enfrentar um dos períodos mais difíceis da vida durante a pandemia de covid-19, a advogada Isabela Tiemi Brassaloti Otsubo, de 30 anos, encontrou no esporte um caminho para reconstruir a rotina, criar novos vínculos e estabelecer novos objetivos. Natural de Ilha Solteira (SP) e atualmente morando em Mato Grosso do Sul, ela conta que enfrentou crises severas de depressão, que culminaram em duas tentativas de suicídio. Foi a partir de uma combinação improvável — um anime japonês e a decisão de entrar em uma quadra de vôlei — que sua trajetória começou a mudar.
Nascida em 14 de dezembro de 1995, Isabela afirma que o primeiro passo para a mudança surgiu quando a pandemia começou a perder força e a população retomava gradualmente as atividades presenciais.
"Com a chegada da vacina, foi muito difícil compreender que tudo estava 'voltando ao normal' e que, com isso, eu precisaria voltar para a sociedade também. Um dia, passeando com minha cachorra, percebi que estava ofegante para subir uma escada de oito degraus. Como me mudei durante a pandemia, perdi acesso aos locais onde fazia atividade física e tive que procurar novos. Já havia começado a frequentar a academia quando procurei o vôlei."
A escolha pelo esporte, no entanto, não aconteceu por acaso. Antes de entrar em uma quadra, Isabela foi impactada pelo anime Haikyu!!, série que acompanha a trajetória de jovens jogadores de vôlei.
Segundo ela, inicialmente não demonstrava interesse pela produção justamente por abordar um esporte.
"O anime era uma indicação que eu já tinha visto na internet, mas sempre torcia o nariz porque era de esporte. Eu, que já não gostava de esportes no geral, assisti a todos os animes que me recomendaram antes de dar uma chance para Haikyu!!"
O que a conquistou não foi apenas o jogo em si, mas a construção dos personagens.
"O que mais despertou meu interesse foram as tramas criadas em cada partida, que me deixavam imersa, esperando que eles acertassem os ataques combinados e vibrando quando conseguia ver a evolução dos personagens. Toda aquela determinação e dedicação me encantaram antes mesmo de surgir a paixão pelo vôlei."
Ela destaca ainda a trajetória do protagonista da história.
"O respeito e a admiração que o protagonista conquistava das pessoas eram muito inspiradores. Digo 'conquistava' porque, a princípio, ele era subjugado, mas, com as próprias ferramentas, conseguia encantar a todos. Depois de um período consumindo toda a mídia relacionada ao anime, liguei os pontos e decidi tentar aquele esporte."
A primeira experiência na quadra, porém, esteve longe de ser simples.
"Foi horrível. Eu estava com 40 quilos a mais em um corpo que nunca tinha treinado vôlei. As primeiras impressões da quadra foram divertidas, porque eu olhava e tudo era igual ao anime. Ficava encantada. Mas as primeiras aulas foram sofridas. Eu não sabia fazer manchete, toque ou saque."
Ela conta que começou do zero e atribui a evolução à paciência do treinador e das colegas de equipe.
"Aprendi tudo com muita paciência do meu técnico e das minhas companheiras. Ajudou muito o fato de elas serem mulheres mais velhas do que eu, porque sempre recebia conselhos para persistir e confiar no processo."
O sentimento de pertencimento também levou tempo para aparecer.
"Só consegui sentir um indício de pertencimento depois de uns seis meses. Resolvi participar de uma aula com outra turma e, depois do treino, ficamos conversando. Foi ali que percebi que estava em um bom caminho."
Além dos benefícios físicos, Isabela afirma que o vôlei teve papel importante na recuperação emocional.
"A prática envolve diversos fatores biológicos e químicos que auxiliam na prevenção da doença, mas o principal foi que me permiti conhecer pessoas novas e transformá-las em amizades. O vôlei me fez criar vínculos com pessoas com quem dificilmente teria convivido em outro contexto."
Ela explica que o ambiente esportivo favoreceu a construção dessas relações.
"Quando você está sempre com alguém, unindo esforços pelo mesmo objetivo, que é não deixar a bola cair, acaba criando intimidade. A partir daí, é fácil investir em um coleguismo e, mais profundamente, em uma amizade."
Outro aspecto importante foi a criação de novos desafios.
"Com o vôlei eu tinha, e continuo tendo, objetivos novos. Quando atinjo um deles, logo aparece outro, o que mantém meu interesse e minha persistência na rotina."
Durante todo esse processo, Isabela manteve acompanhamento médico e psicológico.
"Meu psiquiatra e minha psicóloga estiveram comigo durante todo o processo. Nas fases mais críticas, fazia terapia duas vezes por semana."
Ela destaca ainda o papel do marido, Rodrigo.
"Uma pessoa que nunca saiu do meu lado foi meu marido. Além de cuidar para que eu tomasse corretamente os medicamentos, ele insistia para que eu fosse ao vôlei. Depois começou a jogar comigo e hoje jogamos juntos."
As amizades também tiveram papel importante na recuperação. Ela lembra com carinho de um presente recebido das amigas antes mesmo de começar a praticar o esporte.
"No fim de 2022, minhas amigas fizeram para mim um calendário do advento de aniversário. Um dos presentes era um passarinho do anime feito à mão. Foi um dos presentes mais especiais que já ganhei."
As relações construídas dentro da quadra ultrapassaram o ambiente esportivo.
"Algumas amizades passaram a fazer parte da minha vida como um todo. Cada uma me ensinou coisas diferentes e, por termos algo tão positivo nos unindo, acabei sendo influenciada a praticar outras modalidades também."
Ela lembra de uma amizade que começou de forma difícil.
"No começo, nós nos odiávamos. Ela me odiava porque eu era muito ruim, e eu a odiava de volta. Uns nove meses depois conseguimos nos aproximar e, desde então, dificilmente passamos um dia sem conversar. Hoje ela me ajuda não só no vôlei, mas também a lutar pelos meus sonhos."
Outro momento marcante aconteceu quando conseguiu unir o esporte às pessoas mais próximas.
"Conheço minhas melhores amigas há mais de 16 anos. Quando éramos mais novas, elas queriam jogar vôlei e eu ficava sentada, odiando cada segundo. No primeiro ano em que comecei a praticar, passamos uma semana fazendo aulas de vôlei de praia no Rio de Janeiro. Foi mágico. Quando consegui integrar o vôlei às pessoas que amo, encontrei sentido naquilo."
A experiência também modificou sua forma de enxergar as relações humanas.
"Aprendi a lidar com situações diversas, aceitar e aprender com os erros e, principalmente, ouvir críticas e saber filtrar o aprendizado. Por ter encontrado acolhimento no esporte, tento oferecer isso às pessoas que estão iniciando qualquer desafio. Hoje sou convicta de que tudo é possível com persistência, constância e dedicação."
Ao falar sobre pessoas que enfrentam a depressão, Isabela reforça a importância de buscar ajuda.
"É possível encontrar uma saída. O caminho é difícil e muitas vezes incerto. Ninguém precisa lutar sozinho, e pedir ajuda é um passo essencial."
Ela também destaca a importância de estar aberta a novas experiências.
"A depressão é algo que precisa ser combatido constantemente. Uma das coisas que continua me ajudando é aceitar me abrir para o novo. Repetimos padrões que nos agradam e se expor ao novo pode ser desconfortável, mas dali podem surgir coisas que jamais imaginaríamos."
Ela cita como exemplo a própria mudança de comportamento.
"Eu me rotulava como uma pessoa que não gostava de conhecer gente. Depois do vôlei, meus amigos brincam que preciso parar de fazer amizades porque as festas de aniversário estão ficando grandes demais. Fui dando chance aos acasos e acabei encontrando uma pessoa nova, que gosta de fazer amigos e de esportes."
Hoje, ao olhar para a própria trajetória, Isabela resume a principal mensagem que deseja compartilhar.
"Se permita. Permita ser ruim, permita se desafiar, expor seus pontos fracos e errar. Também é preciso se permitir divertir-se, que é o maior propósito do esporte para quem pratica de forma amadora. Buscamos evoluir, mas também precisamos aproveitar o momento e aceitar que perder faz parte."