Da Redação
“Ali eu vi que tinha potencial para competir a nível mundial”. A constatação feita por Heitor Alves, strongman de Mato Grosso do Sul, resume o ponto de virada de uma carreira construída em uma modalidade ainda pouco conhecida no Brasil, mas que exige força, técnica, planejamento e resistência física em níveis extremos.
Nascido em Campo Grande, em 18 de fevereiro de 1989, Heitor teve o primeiro contato com o strongman como espectador. Em 2015, ao assistir a uma reportagem no Esporte Espetacular sobre o evento Força Bruta, ele percebeu que aquele esporte dialogava diretamente com sua vivência na musculação, iniciada em 2006. “Os feitos de força eram incríveis. Eu já treinava musculação e entendia o quão surreal eram aqueles atletas, que chegavam a pesar até 200 quilos, mostrando para o mundo como o ser humano é capaz de fazer coisas muitas vezes consideradas impossíveis”, relata.
A admiração inicial se transformou em objetivo competitivo alguns anos depois. Em 2021, Heitor disputou sua primeira competição sul-americana. Mesmo sendo um atleta da categoria até 90 quilos, decidiu testar seu desempenho frente a cargas maiores. “Vi que as cargas da categoria até 105 quilos não seriam tão difíceis. Nessa competição fiquei em segundo lugar, atrás do primeiro por apenas meio ponto. Ali eu vi que tinha potencial para competir a nível mundial”, afirma.
O strongman é composto por provas variadas, com formatos que mudam de acordo com a competição. Heitor explica que os eventos podem ser divididos em categorias, como movimentos de pressão vertical, provas estáticas, dinâmicas, isométricas, medleys, corridas com carga e provas de miscelânea. “A quantidade de provas é praticamente infinita. Pode ser levantar peso acima da cabeça, carregar objetos, correr com equipamentos, segurar estruturas pelo maior tempo possível ou combinar vários implementos em uma única prova”, explica.
Entre todas essas variações, ele reconhece um ponto de maior dificuldade. “Por ser alto e não ter treinado levantamento de peso olímpico desde pequeno, tenho mais dificuldade nas provas de potência, principalmente nos arremessos acima da cabeça, como o clean and jerk”, conta.
A preparação para lidar com esse nível de exigência envolve uma rotina estruturada. Os treinos são divididos entre força máxima, potência, trabalhos auxiliares, cardio e sessões específicas com os equipamentos usados nas competições. “Mesmo nos treinos de força máxima, trabalhamos com percentuais de carga e diferentes zonas de repetição. Também há dias voltados para potência, dias para músculos menores, cardio e treinos específicos da modalidade”, detalha. Segundo ele, à medida que uma competição se aproxima, os treinos passam a ser cada vez mais direcionados às provas previstas no evento.
Atualmente, Heitor já direciona sua preparação para compromissos internacionais. “Logo começo minha preparação para o Mundial Arnold Ohio, um dos maiores eventos do mundo”, afirma.
A alimentação e a recuperação fazem parte desse processo. O atleta destaca a importância do planejamento nutricional e da periodização dos treinos. “A alimentação precisa atender às demandas de cada etapa. Uso a comida brasileira, arroz, feijão, carne, frango, saladas e gorduras, tudo bem calculado conforme a necessidade”, explica. Sobre recuperação, ele compara o processo ao de uma gestação. “O corpo passa por fases de desenvolvimento e recuperação, e cada uma exige cuidados diferentes para garantir que tudo funcione bem.”
Entre as conquistas, Heitor acumula resultados expressivos no cenário nacional e internacional. Ele é bicampeão do Arnold Brasil e vice-campeão na mesma competição na categoria até 90 quilos, vice-campeão mundial em Londres, bicampeão de seletivas para o Mundial na Alemanha e terceiro colocado em uma competição open, enfrentando atletas com mais de 170 quilos. Um dos momentos mais marcantes ocorreu justamente no Mundial Ultimate Strongman, na Alemanha. “Fui o primeiro brasileiro da história a subir no pódio desse mundial. Na segunda prova, um equipamento bateu no meu pé e praticamente quebrou. Continuei competindo usando a ponta do dedão para pisar. No final, fiquei em terceiro lugar entre 13 atletas, de mais de 15 países”, relata.
Apesar dos resultados, o caminho não foi isento de obstáculos. “Equipamentos e financiamento para viagens são grandes dificuldades. A falta de incentivo faz com que o atleta precise tirar de casa para investir no sonho de crescer no esporte e representar o Brasil”, afirma.
Sobre o cenário atual, Heitor avalia que o strongman brasileiro vive um momento de crescimento. “Hoje, no Brasil, eu na categoria até 90 quilos e Maillon Machado na até 105 quilos somos os atletas com os melhores resultados da história do strongman nessas categorias. Vejo um cenário promissor, com aumento da mídia dos esportes de força”, analisa. Para Mato Grosso do Sul, ele aponta a necessidade de estrutura. “Precisamos de investidores para ter um centro de treinamento onde qualquer pessoa possa participar da modalidade.”
A mensagem que ele busca transmitir vai além das competições. “Cada um pode e deve acreditar no seu sonho. Mesmo que não se torne atleta, a disciplina de fazer o que precisa ser feito, mesmo sem motivação, muda a vida de várias maneiras. O mais importante é mostrar seriedade e honestidade em tudo o que faço, para ser exemplo dentro e fora do esporte”, diz.
Para o futuro, os objetivos estão claros. “Este ano tenho dois mundiais: o Arnold Ohio e o Official Strongman Games, que funcionam como uma copa do mundo para atletas da minha categoria”, afirma. Fora das arenas, ele também aposta no empreendedorismo. “Quero crescer a empresa que abri para ajudar atletas a encontrarem material no Brasil. Fabrico cinturões e equipamentos tanto para quem faz musculação quanto para atletas profissionais de strongman.”