Da Redação
“O futebol não tem dó, ele é injusto”. A frase resume a visão do atleta sul-mato-grossense Dudu Santos sobre a própria trajetória no esporte. Natural de Itaporã, cidade de cerca de 20 mil habitantes, ele construiu sua caminhada entre dificuldades, oportunidades pontuais e momentos de ruptura que quase o afastaram definitivamente dos gramados.
A relação com o futebol começou ainda na infância, influenciada diretamente pelo ambiente familiar. “Minha relação com o futebol começou muito cedo por conta do meu pai, que era jogador na época. Desde muito novo sempre estive nesse meio. Aos 4 anos já treinava em uma escolinha e já me destacava sobre os demais. Nunca vi o futebol como lazer, mas sim como algo que eu queria para a minha vida”, afirma. Segundo ele, a decisão de levar o esporte a sério veio logo cedo. “Desde cedo sempre soube o que eu queria, mas foi aos 8 anos que a coisa ficou séria, quando tive a oportunidade de jogar no Grêmio.”
Mesmo com o início promissor, o caminho foi marcado por limitações estruturais típicas de quem cresce fora dos grandes centros. “No nosso estado não tem muitas oportunidades, principalmente na cidade onde cresci. Itaporã é uma cidade de 20 mil habitantes, onde é difícil ter oportunidade em qualquer área de trabalho, imagina no futebol”, relata.
Nesse contexto, uma figura foi determinante para a continuidade da carreira. “Deus colocou uma pessoa na minha vida que mudou tudo, o Reginaldo, do Pro Gol. Infelizmente, não está mais entre nós. Devo muito a ele e à família dele. Se hoje estou aqui vivendo esse sonho é porque ele me ajudou muito”, conta. O atleta lembra da rotina para conseguir treinar. “Eu pegava o ônibus em Itaporã todos os dias e ia para Dourados. Ele me buscava no ponto e me levava para treinar. Foi um anjo na minha vida e sei que está se orgulhando lá de cima.”
O apoio familiar também aparece como um dos pilares da trajetória. “Minha família é a base de tudo. São eles que me dão todo o suporte e me deixam tranquilo para trabalhar. Sem eles nada faz sentido. É por eles que sigo nesse sonho”, diz. O pai, além de incentivo, é referência direta. “Um ídolo que tive dentro de casa. Ele sabe como funciona, sabe as dificuldades da profissão e sempre me mostrou o caminho certo. Me inspiro nele em tudo.”
Dentro de campo, Dudu se define como um jogador de leitura de jogo. “Sou um jogador que tem um passe muito bom, que se posiciona bem dentro de campo, que consegue pensar rápido em espaços curtos. Tenho uma bola parada boa, sou um jogador de intensidade. Procuro fazer o jogo andar, com poucos toques e sempre para frente. Também tenho uma bola longa muito boa.”
Entre os momentos marcantes, ele destaca a chegada ao futebol profissional e experiências em grandes clubes. “O momento que marcou a minha carreira foi o meu primeiro gol como profissional. Graças a Deus pude fazer dois gols na mesma partida. Outro momento foi quando subi para treinar com o profissional do Internacional e do Atlético Mineiro. Ver os jogadores pela televisão e, no outro dia, trabalhar com eles foi a realização de um sonho.”
Se os pontos altos existem, os desafios também marcaram profundamente sua trajetória. “Acho que o momento mais difícil foi na preparação para a Copa São Paulo de 2025. Não tínhamos uma alimentação boa. Muitas vezes íamos dormir com fome, treinávamos com fome. Não tínhamos uma cama boa para dormir, mas a gente suporta tudo isso porque é o nosso sonho”, relata. Em seguida, reforça: “Essa é a realidade do futebol brasileiro. O futebol não tem dó, ele é injusto.”
Após a competição, a pressão e o desgaste levaram a uma decisão radical. “Depois da Copinha, eu decidi parar com o futebol. Não me via mais no esporte, não estava mais feliz. Depois que minha filha nasceu, eu só queria ficar perto dela, ver ela crescer de perto. Foi isso que eu fiz, e isso me trouxe paz, coisa que o futebol não estava mais me proporcionando.”
Durante o período afastado, Dudu buscou outras formas de sustento. “Comecei a trabalhar. Fui servente de pedreiro, trabalhei no sítio com meu tio, fui até professor de futevôlei. Não me arrependo. Fiz tudo isso feliz. Aprendi muito com meu tio e vou carregar isso para sempre.”
Ao falar sobre o cenário do futebol em Mato Grosso do Sul, o atleta aponta problemas estruturais e de gestão. “O futebol sul-mato-grossense é carente, mas é assim por conta de pessoas de má-fé, que prometem e não cumprem, que iludem os próprios jogadores. A gente não é valorizado como deveria. Isso precisa mudar”, afirma. Apesar das críticas, reconhece o papel das oportunidades que teve. “Sou grato pelas chances que tive no estado. Com elas e com a minha dedicação, consegui chegar onde estou hoje.”
Atualmente, o foco está no presente e em metas esportivas. “Hoje, meu objetivo principal é fazer uma boa competição e, com a ajuda dos meus companheiros, conseguir o acesso para a primeira divisão do Catarinense. Também quero ir para um clube maior. O futuro eu deixo nas mãos de Deus. Sigo trabalhando firme, fazendo as coisas certas.”
Fora de campo, a prioridade é a família. “Eu amo estar com a minha filha, ter tempo de qualidade, ver ela crescer junto com a mãe dela. Gosto de ir pescar, me reunir com meus amigos, estar no sítio”, finaliza.