Da Redação
“Desistir não é uma opção”. A frase acompanha a trajetória da atleta de MMA Déborha Ferreira Terra Mendes, nascida em Campo Grande, e resume a relação que construiu com o esporte ao longo dos anos. Entre pausas, mudanças de estado e dificuldades financeiras, ela segue planejando o retorno às competições ainda nesta temporada.
A entrada no mundo das lutas aconteceu ainda na adolescência, impulsionada por situações vividas fora do tatame. “Minha trajetória começou por uma mistura de necessidade e incentivo familiar. Quando eu era menor, meninas mais velhas mexiam comigo e com a minha irmã, e eu me sentia indefesa”, relata.
A prática esportiva também surgiu como alternativa para melhorar a saúde. “Mais tarde, aos 14 anos, eu estava um pouco acima do peso e queria emagrecer. Mas o que mais me motivou foi o meu padrasto; ele brincava de ‘lutinha’ comigo, percebeu que eu levava jeito e me incentivou a treinar de verdade”, completa.
O início da carreira foi marcado por limitações financeiras, que impactaram diretamente a participação em competições. “A questão financeira, com certeza, foi o maior obstáculo. Como a maioria dos eventos no estado são pagos e meus pais nem sempre tinham condições, houve uma época em que meus próprios colegas de equipe se juntavam para pagar minha inscrição”, conta.
Além disso, ela destaca outros desafios comuns a atletas em formação. “Lidar com o corte de peso e me manter focada, mesmo com problemas pessoais, foi um desafio constante. Posso dizer que a luta me salvou muitas e muitas vezes.”
Em Campo Grande, Déborha iniciou os treinamentos na equipe Furious Thai, sob orientação do Mestre Neto. Foi nesse período que realizou as duas primeiras lutas de MMA, no evento Contender Fight. Em busca de novas oportunidades, decidiu se mudar para Santa Catarina, onde passou a integrar outras equipes e ampliar a rotina de treinos.
“Atualmente, mudei-me para Santa Catarina em busca de mais oportunidades. Iniciei na Chute Boxe treinando Muay Thai e Jiu-Jitsu com o Mestre Michel, que depois retornou para sua antiga equipe, Kobra Jiu-Jitsu, onde treino atualmente”, explica. A carga de treinos é dividida em dois períodos ao longo do dia. “Minha rotina é intensa: de segunda a sexta, treino das 10h às 13h30 e, à noite, das 19h às 21h.”
Com base no Muay Thai, a atleta precisou ampliar o repertório técnico para se adaptar às exigências do MMA. “Sou oriunda do Muay Thai, então precisei alinhar muito o meu Jiu-Jitsu e o grappling para me tornar uma atleta completa. Também treino Boxe no CT Marreta para refinar a parte em pé”, afirma.
Entre os momentos marcantes da carreira, ela destaca a conquista de um cinturão, resultado de uma revanche. “A luta que mais marcou minha carreira até agora foi a conquista do meu cinturão. Foi em uma revanche que aceitei e sinto que ali foi o meu auge, o momento em que todo o esforço se concretizou.”
Mesmo com a evolução individual, Déborha avalia que o cenário do MMA feminino ainda enfrenta limitações, especialmente no Mato Grosso do Sul. “Vejo que temos muito talento, mas poucas oportunidades. Acredito que, se houvesse mais patrocínio para o esporte, com certeza sairiam grandes talentos de Campo Grande para o mundo.”
As referências dentro do esporte também fazem parte da construção da atleta. “Inspiro-me muito na Gisele Moreira pela história de vida dela; começou tarde no esporte, passou por um luto e deu a volta por cima. Também admiro a Natália Silva, amo o estilo de luta dela. O Charles do Bronx nem se fala — a história dele com a Chute Boxe foi o que me inspirou a vir para Santa Catarina. Além deles, Amanda Nunes e a Cris Cyborg, que também veio do meu estado, são referências fundamentais.”
Fora do octógono, a conciliação entre treinos, trabalho e estudos exigiu adaptações ao longo dos anos. “É muito difícil. Como não tenho patrocínio, tive que parar diversas vezes por conta de trabalho e estudos, mas sempre volto porque é ali que sinto que preciso estar. Muitas vezes eu ia direto do serviço para o curso, e do curso para o treino, sem dormir.”
Recentemente, a atleta fez uma pausa para concluir a formação como técnica em enfermagem, mas já projeta o retorno às lutas. “Pretendo voltar a lutar ainda este ano. Já recebi propostas para grandes eventos, como o LFC, que com certeza estão na minha lista de metas para o próximo ano.”
Ao falar com outras mulheres interessadas nas artes marciais, Déborha destaca o papel da prática para além da competição. “Toda mulher deveria praticar uma arte marcial, não só pelo esporte, mas pela sua própria defesa. Para aquelas que desejam seguir carreira, deixo a frase que carrego comigo: ‘Desistir não é uma opção’. E lembrem-se: dá para ser feminina e, ainda assim, usar luvas”, conclui.