Da Redação
A relação de Rafaela Person Ceccatto com o basquete começou ainda na escola, passou por um intervalo de mais de uma década e ganhou um novo capítulo após sua mudança para Campo Grande, em 2024. Fisioterapeuta e atleta, a curitibana de 29 anos passou a conciliar a atuação profissional no Hospital Militar com treinos e competições em Mato Grosso do Sul. Atualmente, integra o CGR Basket e utiliza também a experiência nas quadras em sua relação com pacientes que praticam esportes.
Nascida em 23 de outubro de 1996, em Curitiba (PR), Rafaela teve o primeiro contato com o basquete durante a adolescência. A altura, que na época era uma característica com a qual ela ainda não se sentia confortável, acabou contribuindo para que surgisse uma oportunidade no esporte.
“O basquete entrou na minha vida por acaso. Sempre fui a mais alta da turma e isso chamava um pouco a atenção, mesmo eu não gostando. Na oitava série, ganhei uma bolsa de estudos no Colégio Dom Bosco, em Curitiba, para treinar com o time deles junto com o Círculo Militar”, relembra.
A experiência aconteceu em 2010. Durante aquele ano, Rafaela passou a treinar, viajar e participar de campeonatos. A falta de condicionamento adequado e os problemas posturais, porém, fizeram com que as dores também estivessem presentes naquela primeira passagem pelas quadras.
“Passei o ano jogando, viajando e participando de campeonatos, mas sempre estava com muitas dores e até machucada. Por ser muito alta e não ter um condicionamento bom para jogar, e também por não gostar da minha altura, acabava compensando muito com uma postura errada”, conta.
Ao fim daquele ano, ela deixou o basquete. O esporte, no entanto, voltou a cruzar seu caminho durante a graduação em Fisioterapia. Em 2017, durante o estágio na área de ortopedia, Rafaela atendeu um jogador de basquete que havia lesionado o joelho.
“Ele não tinha nada grave na época, porém faltava muito aos atendimentos para continuar jogando”, lembra.
Seis anos depois, em 2023, Rafaela foi acompanhar uma etapa da Liga Jockey Plaza ANB3x3, em um shopping de Curitiba, e reencontrou o antigo paciente. A partir daquele contato, passou novamente a acompanhar o basquete e a se aproximar da modalidade. A volta efetiva às quadras, contudo, aconteceria somente no ano seguinte e já em outro estado.
Em 2024, Rafaela mudou-se para Campo Grande. Sem conhecer ainda a rotina esportiva da Capital, começou a buscar atividades para ocupar parte do tempo livre enquanto o namorado praticava futebol.
“Comecei a treinar mais para poder ocupar meu tempo, que estava muito ocioso enquanto meu namorado ia para o futebol. Porém, acabei gostando e participando cada vez mais. Hoje eu passo mais tempo nas quadras e levo ele junto comigo”, relata.
A entrada no basquete sul-mato-grossense ocorreu por meio de indicações. Rafaela passou a integrar o Sevilha, onde foi recebida por Ibrahim e pelas demais atletas da equipe. No primeiro ano, disputou competições de basquete 3x3 em Campo Grande e Maracaju, além da Copa Mercosul, do Estadual e de outros torneios.
Em 2026, recebeu o convite de uma das companheiras para participar da formação de uma nova equipe, o CGR Basket. O grupo reúne atletas mais novas e jogadoras da categoria master que estavam há algum tempo afastadas das quadras.
“Com meses de formação, com meninas novas e algumas já master, mas com tempo fora de quadra, já conseguimos conquistar a primeira medalha como time nos Jogos Abertos de Campo Grande”, afirma.
Fisioterapia começou com caso na família
A escolha profissional de Rafaela também está ligada a uma experiência familiar. Um primo tem Distrofia Muscular de Duchenne, doença genética rara e degenerativa, e o contato com a condição contribuiu para despertar seu interesse pela Fisioterapia.
“A Fisioterapia veio para a minha vida por conta de um primo que tem Distrofia Muscular de Duchenne. Mas, no meio do caminho, acabei indo para outras áreas. A Fisioterapia acabou sendo uma forma de unir duas coisas de que eu já gostava. Sempre tive curiosidade de entender melhor o corpo, as lesões e como ajudar alguém a voltar para aquilo que gosta de fazer”, explica.
Com a formação e a retomada do basquete, profissão e esporte passaram a ocupar espaços relacionados na rotina de Rafaela. A vivência como atleta, segundo ela, ajuda a compreender situações enfrentadas pelos pacientes, especialmente aqueles que precisam interromper temporariamente a prática esportiva por causa de lesões.
“Consigo entender o paciente não só como fisioterapeuta, mas também como atleta. Sei como é querer continuar treinando mesmo sentindo alguma coisa, ficar ansiosa para voltar depois de uma lesão e ter aquela sensação de: ‘Será que vou conseguir jogar igual antes?’. Então, acho que essa vivência me dá uma visão mais humana e também me ajuda a entender melhor a realidade de quem pratica esporte”, diz.
O conhecimento profissional também alterou sua própria relação com os treinamentos. Se anteriormente a prioridade era apenas estar em quadra, atualmente aspectos como fortalecimento, recuperação e descanso fazem parte da preparação.
“Hoje eu tenho uma consciência muito maior sobre meu corpo. Antes eu queria treinar, jogar e pronto. Hoje penso muito mais em fortalecimento, prevenção, recuperação, descanso e até em perceber pequenos sinais antes que eles virem um problema maior. A Fisioterapia me ensinou que cuidar do corpo não é deixar de treinar, é justamente uma parte do treinamento”, afirma.
Plantões, treinos e competições
Conciliar as duas atividades exige organização. Rafaela trabalha como fisioterapeuta no Hospital Militar e precisa ajustar os plantões quando as datas coincidem com partidas e competições.
“É um verdadeiro malabarismo de agenda. Nem sempre é fácil, até porque hoje trabalho como fisioterapeuta no Hospital Militar e meus plantões têm que ser trocados direto por conta dos jogos. Tento me organizar bastante e entender que não vou conseguir fazer tudo todos os dias”, explica.
Segundo ela, a prioridade varia conforme cada período. “Tem épocas em que o basquete exige mais, outras em que o trabalho ocupa mais espaço, e vou tentando equilibrar. No fim, dá trabalho, mas é uma rotina de que eu gosto e que faz sentido para mim.”
A experiência profissional também faz com que Rafaela acompanhe com atenção as exigências físicas do basquete. Entre os problemas encontrados com maior frequência na modalidade, ela cita as entorses de tornozelo e lesões ou dores envolvendo joelhos, tendões e musculatura.
“As lesões de tornozelo aparecem bastante, principalmente as entorses, mas também vemos muitas queixas e lesões relacionadas aos joelhos, tendões e musculatura, principalmente pela quantidade de saltos, mudanças de direção e impacto que o basquete exige”, explica.
Para a fisioterapeuta, os cuidados precisam começar antes de qualquer problema impedir o atleta de entrar em quadra.
“Prevenção começa muito antes de entrar em quadra. Fortalecimento, mobilidade, equilíbrio, estabilidade, uma boa preparação para o treino e, principalmente, respeitar o descanso. E uma coisa que eu sempre falo: não precisa esperar a dor ficar insuportável para procurar ajuda. Quanto antes você cuida, melhor.”
Rafaela também já precisou lidar com dores e lesões que provocaram períodos de redução dos treinamentos e afastamento das quadras. A experiência, segundo ela, mudou a maneira de enxergar o processo de recuperação dos próprios pacientes.
“Como atleta, essa é uma das partes mais difíceis. Você quer estar jogando, quer ajudar o time, mas seu corpo está dizendo que precisa parar”, relata.
Para ela, o retorno ao esporte não está relacionado somente ao desaparecimento da dor. “Recuperação não é só esperar a dor passar. Tem toda a parte de recuperar força, movimento, confiança e, principalmente, voltar a acreditar no próprio corpo. Hoje, quando vejo um atleta passando por isso, consigo me colocar muito mais no lugar dele.”
Basquete feminino em Mato Grosso do Sul
Depois de pouco mais de dois anos inserida no basquete de Mato Grosso do Sul, Rafaela avalia que há atletas e equipes buscando ampliar a modalidade feminina no Estado, mas aponta a necessidade de mais competições, estrutura e oportunidades.
“Tem muita menina querendo jogar, equipes surgindo e pessoas que realmente estão tentando movimentar o basquete feminino. Mas ainda temos bastante espaço para crescer”, afirma.
Para Rafaela, ampliar o calendário de competições e o incentivo pode contribuir para a continuidade das atletas na modalidade.
“Acredito que precisamos de mais competições, mais incentivo, estrutura e oportunidades para as atletas. Às vezes não falta vontade nem talento, falta oportunidade mesmo. E acho muito legal ver cada vez mais mulheres ocupando a quadra e mostrando que o basquete feminino tem muito a oferecer”, diz.
Os planos para os próximos anos continuam envolvendo as duas atividades. Na profissão, Rafaela pretende ampliar os conhecimentos e a experiência relacionados ao esporte. No basquete, quer seguir treinando, competindo e participando do desenvolvimento da modalidade feminina em Mato Grosso do Sul.
“Na Fisioterapia, quero buscar cada vez mais conhecimento e experiência dentro do esporte e continuar me desenvolvendo profissionalmente. E, dentro do basquete, quero continuar jogando, evoluindo, competindo e aproveitando tudo que o esporte puder me proporcionar”, afirma.
Ela também pretende utilizar a experiência acumulada nas duas áreas para contribuir com outras atletas. “Tenho vontade de contribuir para o crescimento do basquete feminino, principalmente aqui no Mato Grosso do Sul.”
Depois de ter encontrado o basquete na adolescência, deixado as quadras e retomado a modalidade anos mais tarde, Rafaela passou a relacionar a experiência esportiva ao trabalho que exerce fora delas.
“Acho que hoje não consigo mais separar completamente a fisioterapeuta da atleta. Uma acabou ajudando a construir a outra, e quero continuar levando as duas comigo nos próximos passos.”