Da Redação
“Eu não queria mais sair do box. Eu tinha metas, movimentos que eu queria muito aprender e cargas que eu queria muito levantar. Se tornou viciante e a parte mais esperada do meu dia.” A frase resume a relação de Júlia Gonçalves Yassaka com o CrossFit, modalidade que entrou cedo em sua vida e que, ao longo dos anos, deixou de ser apenas uma atividade física para se tornar parte da sua rotina.
Nascida em 25 de março de 2005, em Campo Grande (MS), Júlia começou a praticar CrossFit aos 13 anos, em outubro de 2018. O incentivo inicial veio de casa. “Os meus pais já praticavam a modalidade e eu decidi começar também, pois achava que estava muito sedentária, com o corpo muito parado”, conta. A prática esportiva, além do interesse pessoal, também tinha relação com a saúde. Ainda na infância, Júlia foi diagnosticada com fragilidade ligamentar, condição que exige fortalecimento muscular contínuo. Antes do CrossFit, ela passou por outras atividades, como balé, ginástica, natação e krav maga, mas nenhuma delas teve continuidade. “Nenhum me cativava e motivava tanto quanto o CrossFit.”
O início, no entanto, foi marcado por dificuldades comuns a quem está conhecendo a modalidade. Júlia treinava poucas vezes por semana e relata que ainda não compreendia bem os movimentos. Após uma pausa durante as férias, no começo de 2019, a percepção sobre o esporte mudou. “Quando voltei, parece que virou uma chavinha na minha cabeça. Comecei a assimilar melhor a mecânica dos movimentos e seus respectivos nomes.” Com o tempo, os treinos se intensificaram, assim como os objetivos pessoais. “Eu não queria mais sair do box”, relembra.
Paralelamente à evolução técnica, Júlia enfrentou desafios fora do ambiente de treino. Durante a adolescência, ela recebeu críticas relacionadas aos estereótipos associados ao CrossFit. “Já falaram na minha cara que eu teria um corpo feio, masculino e nada estético.” As falas tiveram impacto emocional e, em alguns momentos, quase a fizeram desistir. “Já chorei muito e cogitei várias vezes parar de treinar.” O apoio da família, especialmente da mãe, e a convivência com pessoas mais velhas dentro do box foram fundamentais para que ela seguisse no esporte. “Fui percebendo que não precisava dar atenção às críticas. Eu sempre gostei de como o meu corpo estava ficando e, principalmente, do quão funcional ele estava ficando.”
O CrossFit também trouxe mudanças físicas significativas. Júlia relata que sempre teve dificuldade para ganhar peso e iniciou na modalidade com cerca de 42 quilos. Com o tempo, passou a compreender melhor sua alimentação e hoje mantém um peso considerado saudável para seu biotipo. “Isso contribuiu muito para a minha autoestima.” No aspecto emocional, ela destaca ganhos como foco, paciência e maior capacidade de lidar com desafios do cotidiano. A prática diária também fortaleceu os laços familiares. “Treinar todos os dias junto dos meus pais é uma dádiva e nos aproxima muito.”
Ao longo da trajetória, alguns marcos se tornaram simbólicos. Um deles foi a conquista do Bar Muscle Up, movimento que exigiu persistência. “Foi o movimento que eu mais batalhei para conseguir realizar, mais me frustrei e derramei lágrimas por achar que nunca conseguiria.” Outro destaque foi o avanço nas cargas prescritas, algo que antes parecia distante. “Eu via as mulheres que treinavam há mais tempo e pensava: será que um dia eu vou conseguir?”
Desde 2019, Júlia participa de competições. A estreia foi no Campo Grande Games, em trio com os pais. A partir dali, passou por campeonatos online durante a pandemia e, posteriormente, por eventos presenciais. Em 2022, encerrou sua participação na categoria Teen com um primeiro lugar no ERB Fun MS. Já na categoria adulta, acumulou experiências, pódios e aprendizados, incluindo competições de maior porte. Em 2025, optou por não competir. “Não foi por lesão. Eu apenas optei por me concentrar em outras áreas da minha vida.” Para o futuro, ela afirma que ainda há planos. “2026 ainda tem história a ser contada.”
Ao falar sobre a presença feminina no CrossFit, Júlia destaca a importância da ocupação desses espaços. “Cada vez mais vejo mulheres, de todas as idades, iniciando o esporte, motivando outras a começarem.” Para quem ainda tem receio de começar, ela reforça que o processo é gradual. “Todos começam do zero, aprendendo a mecânica dos movimentos e adaptando os treinos. Só é necessário dar uma chance.”