Da Redação
“Um belo dia, o professor Hugo foi até a minha casa e disse para minha mãe que pagaria o curso de arbitragem para eu fazer.”
Essa foi a porta de entrada de Crislaine Fernandes Alves, 31 anos, natural de Ponta Porã, no universo da arbitragem de basquete. O contato inicial com o esporte veio ainda na infância, aos 10 anos, quando o professor João Ernesto, in memoriam, visitou sua escola convidando os alunos interessados a treinar na Poli Esportiva do Ipê II.
“Os treinos eram todos os dias, às 14h. O professor João treinava o time feminino das 14h às 17h, e o professor Hugo da Costa, o masculino, das 17h às 19h. Quando comecei a competir, além de treinar com o feminino, ficava e treinava também com o time masculino”, relata. A convivência com equipes masculinas e femininas marcou o início de sua formação no basquete e no arbitragem, despertando interesse pela função de árbitra.
Crislaine lembra que, na época, uma colega, Cristiane Martins, atuou a nível nacional e isso a inspirou. “Quando ela voltou, fui até a casa dela para saber como foi a competição. Logo, comecei a apitar os coletivos que tinha nos treinos.” Aos 13 anos, iniciou formalmente sua trajetória na arbitragem com o curso oferecido pelo professor Hugo.
Mesmo iniciando cedo como árbitra, Crislaine manteve a carreira de atleta. Aos 15 anos, mudou-se para Dourados, após receber uma bolsa integral oferecida pela técnica Michele Mendonça, para concluir o ensino médio. Essa mudança trouxe a oportunidade de treinar em escolas particulares e clubes, além de continuar sua formação acadêmica.
“Continuei jogando, formei em Educação Física, fui estagiária da minha técnica e, pós-formada, dei aulas em uma das melhores escolas privadas de Dourados, a Escola Presbiteriana Erasmo Braga, e treinos de basquete no Clube Indaiá. Ao todo, morei sete anos em Dourados.”
Como atleta, Crislaine conquistou títulos municipais por Ponta Porã e Dourados, campeonatos estaduais, foi cestinha geral e de três pontos, e integrou a seleção do estado em campeonatos brasileiros de base. Durante esse período, conciliava os treinos e jogos com a atuação como árbitra: “Meu primeiro curso de arbitragem foi com 14 anos, e ainda era atleta. Então apitava a liga de basquete do estado e jogava.”
A entrada para o quadro da Federação e o salto internacional
Aos 18 anos, ingressou no quadro da Federação de Mato Grosso do Sul. Em 2015, participou de sua primeira competição internacional e, nesse mesmo ano, completou a clínica que a habilitou para integrar o quadro nacional de árbitros. Desde então, passou a atuar nos Campeonatos Brasileiros de Base da Confederação Brasileira de Basketball (CBB).
“Em 2017, me mudei para a Federação Paulista, encarei a ‘Selva de Pedra’, como chamamos São Paulo, em busca do sonho de ser árbitra internacional. Em 2018, comecei a apitar a LBF, a principal competição profissional feminina do país. Tive a oportunidade de apitar em vários clubes e também na Divisão Especial, adulta masculina e feminina”, recorda.
Durante cinco anos em São Paulo, Crislaine enfrentou desafios pessoais e profissionais. “Foi vir para São Paulo sem conhecer nada, nem ninguém. Vim sozinha, fiquei dois anos sozinha até meu ex-noivo vir para cá na época.”
A dedicação a cada jogo, competição e treinamento refletiu em sua evolução. “Todos os jogos são importantes. Os Jogos Escolares começam em MS, municipais e estaduais, e vão aumentando para os Brasileiros de Base, os campeonatos da CBB, masculino e feminino, todas as categorias. Apitar o masculino é um feito muito grande. Apitar a Liga Feminina também. Recentemente participei de duas fases da LDB estou em preparação para a fase final que será no RJ de 09 a 18/09, um campeonato da LNB -Liga Nacional de Basquete, porta de entrada para árbitros e atletas para o NBB.''
Crislaine detalha sua rotina intensa de preparação, que envolve trabalho físico, psicológico e fisioterápico. “Tenho dois preparadores físicos, psicóloga e fisioterapeuta. Tenho uma equipe muito qualificada para cuidar e me ajudar a estar sempre preparada para as convocações.”
Sua dedicação é constante, mesmo frente aos desafios do ambiente predominantemente masculino. “Sobre o preconceito, sim, existe, mas não me importo. Acredito que somos todos iguais. Cabe a cada mulher se impor e fazer o seu melhor.”
Ela também enfatiza a necessidade de vontade e disciplina. “Primeiro é querer. Precisa querer chegar em algum lugar, precisa querer ser. Incentivo existe, a Federação de MS dá suporte, mas o árbitro precisa querer.”
O reconhecimento internacional chegou em 2024, quando Crislaine foi indicada e se tornou a primeira árbitra internacional de Mato Grosso do Sul. “Primeiro, é a realização de um sonho. Também é para mostrar que tudo que sonhamos e queremos é possível.”
Além disso, ela é a primeira mulher do MS a integrar o quadro de arbitragem da Liga Nacional, que reúne o basquete masculino profissional. “Meu objetivo era o NBB e foi alcançado. Estou feliz, mas não satisfeita. Trabalho, moro em Santa Catarina justamente por conta da logística, para estar em um grande centro.”