Da Redação
“Falo que a corrida me tirou da anorexia e me fez ver um sentido na área da saúde. Comer bem, dormir bem, treinar bem e ter um corpo funcional.”
A frase dita por Melanie Arguello de Souza resume a forma como a corrida de rua deixou de ser apenas uma alternativa de atividade física durante a pandemia e passou a ocupar um papel estruturante em sua vida. Nascida em 18 de novembro de 1996, em Campo Grande (MS), Mel, como é conhecida no meio esportivo, encontrou na corrida um caminho de reorganização da rotina, da relação com o corpo e da própria compreensão sobre saúde.
A aproximação com a modalidade aconteceu em 2020, quando academias fecharam as portas e o espaço urbano se tornou a única opção para manter o hábito de se exercitar. “A corrida entrou na minha vida na pandemia, quando as academias foram fechadas e o único jeito que eu tinha de queimar calorias era literalmente correndo na rua”, relata. Antes disso, sua rotina já era marcada por longos períodos de exercícios aeróbicos em aparelhos. “Eu fazia cerca de 50 minutos de elíptico todos os dias e, aos sábados, corria 10 km na esteira. Na minha cabeça, era uma forma de compensar as calorias.”
Mel relata que esse comportamento estava diretamente ligado a um histórico de transtorno alimentar. “Sempre tive um ‘vício’ em fazer aeróbico, pois tive anorexia. Mesmo hoje estando bem, digo que ela deixa cicatrizes, e uma delas é a preocupação com o corpo.” A mudança começou quando uma amiga da academia, Benita, corredora de rua, a convidou para treinar fora do ambiente fechado. “Ela me chamou para correr na rua e eu fui. Corremos juntas por muito tempo.”
A primeira experiência em competição veio logo após o período mais restritivo da pandemia, na Corrida das Mulheres, realizada no Parque do Sóter. “Todos corriam de máscara. Fiz a distância de 5 km e consegui o primeiro lugar na minha categoria.” O resultado trouxe uma percepção diferente sobre desempenho. “Foi quando vi a importância da alimentação para me dar mais energia e correr melhor, pensando em um dia conquistar o pódio geral.”
A partir daí, a corrida passou a ser entendida não como compensação, mas como construção. “A corrida me fez ver um sentido na área da saúde. Comer bem, dormir bem, treinar bem.” Esse novo olhar ajudou a consolidar a permanência no esporte. “Gosto da disciplina e do sentido que isso traz para minha vida. E também gosto de poder comer tudo o que quero, porque queimo muito”, conta.
Ao falar sobre os desafios de se consolidar como atleta de corrida em Mato Grosso do Sul, Mel aponta a questão da segurança. “O principal desafio é ser mulher e sempre ter risco de ser abordada na rua e de assédio. Já passei por situações que poderiam ser evitadas.” Ao mesmo tempo, reconhece avanços estruturais. “Acho muito boa nossa cidade no quesito ciclovia, temos várias.”
Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi a decisão de disputar a primeira meia maratona. “Foram alguns anos correndo distâncias mais curtas até essa vontade surgir.” A prova escolhida foi em Florianópolis, em um percurso à beira-mar. “Queria que fosse algo único: 21 km beira-mar.” Para isso, Mel entrou em uma nova assessoria, ajustou a rotina e aumentou o nível de exigência. “Tive novos estímulos, corri distâncias que nunca tinha corrido, fiz novas amizades e precisei de mais disciplina alimentar e de sono.”
No dia da prova, a experiência ganhou um significado maior. “Começamos a correr às 5h da manhã. No retorno, era a descida da ponte, o sol nascendo e o mar logo abaixo.” Durante o percurso, ela relata conversas e trocas com outros corredores. “Cada pessoa ali tinha um motivo, uma história.”
Um ano depois, a mesma prova voltou a marcar sua trajetória, desta vez em meio a uma lesão. “Tive uma fratura por estresse grau 2 na canela.” Mesmo com a recomendação médica de evitar a competição, decidiu seguir. “Eu sabia que seria minha última prova por um tempo.” Com cuidados específicos, fisioterapia e fortalecimento, completou os 21 km em 1h35, seu melhor tempo. “Bati meu recorde pessoal. Foi meu auge até hoje.”
Atualmente, Mel mantém uma rotina estruturada. Treina corrida quatro vezes por semana, com média de 50 km, e musculação cinco vezes. “Sou CLT, então preciso dormir cedo. Costumo dormir entre 20h30 e 21h30 e acordo por volta das 4h15.” A organização exige concessões. “Quando tenho uma meta, sigo os horários à risca. Em períodos mais leves, consigo socializar mais.”
Para além dos resultados, a corrida representa um espaço de equilíbrio. “É uma meditação. Minha cabeça fica 100% presente. Observo o céu, as árvores, os pássaros.” Segundo ela, isso reflete diretamente na vida cotidiana. “Me traz calma e me faz entender que cada desafio tem seu tempo.”
Sobre o cenário local, Mel avalia que as corridas cresceram e ganharam projeção. “Algumas provas atraem turistas e impulsionam o comércio, como a Maratona de Campo Grande e a Bonito 21K.” Ela pondera, porém, sobre os custos. “Os preços das corridas estão cada vez mais altos. Poderiam incentivar mais com premiação em dinheiro ou inscrições futuras.”
“O incentivo de algumas empresas também é muito bom. Tendo em vista que querer performar exige suplementação, exige plano alimentar, exige fortalecimento, fisioterapia e tudo isso é custoso. Atualmente tenho incentivo da academia onde faço meus treinos de membros inferiores e valorizo muito isto. Sei que sozinha não faria metade do que faço. Sou muito grata pela Academia GA em acreditar em mim”, completou.
Entre os objetivos, Mel destaca o desejo de correr 5 km abaixo de 20 minutos e completar uma prova de triatlo sprint. “Assim como a corrida não é só 21 e 42 km, o triatlo também não é só Ironman.” A médio prazo, sonha em baixar o tempo nos 21 km para menos de 1h30.
Ao falar com quem está começando, a orientação é direta. “Tenha paciência. Valorize cada metrinho a mais.” Para ela, o essencial vem antes da performance. “Para ser corredor, não precisa de nada muito custoso. Primeiro, ame o esporte.”