Da Redação
“Corpo, mente e espírito formam o caráter de um bom lutador.” A frase resume o conceito que sustenta o trabalho desenvolvido por Jeziel Medeiros Oliveira à frente da JMO Jiu-Jitsu, em Campo Grande. Nascido em 22 de janeiro de 1986, na capital sul-mato-grossense, ele construiu sua trajetória na modalidade a partir de experiências ligadas ao trabalho social e hoje coordena um centro de treinamento que reúne mais de 60 alunos, além de projetos de extensão em formação.
A relação de Jeziel com o jiu-jitsu começou em 2012, na equipe Claudionor Cardoso, quando ainda era faixa azul. Naquele período, ele atuava como ajudante em um projeto social desenvolvido dentro de uma igreja. “Comecei em 2012, ainda na faixa azul, como ajudante em projeto social em uma igreja”, relembra. Com o passar do tempo, surgiu a oportunidade de assumir responsabilidades maiores dentro da equipe da qual fazia parte. Já como faixa marrom, aceitou o desafio de se tornar responsável por uma filial.
O início desse novo ciclo coincidiu com um dos períodos mais difíceis para projetos esportivos no país: a pandemia. Segundo ele, a continuidade do trabalho chegou a ser ameaçada. “Começamos o trabalho ainda na pandemia, tivemos dificuldades e quase fechamos as portas”, relata. A necessidade de manter o espaço ativo levou a uma decisão estratégica. Para sair do aluguel e garantir estabilidade, Jeziel e os parceiros optaram por investir em um local próprio.
A solução encontrada foi a aquisição de uma casa no bairro onde o projeto estava inserido. O imóvel possuía espaço suficiente para a montagem do centro de treinamento na parte frontal. O local atendeu às necessidades da equipe por dois anos, até que o crescimento no número de alunos exigiu uma nova mudança. “O local ficou pequeno após dois anos e demos um passo de fé. Fomos para um espaço maior, com localização comercial mais adequada”, afirma.
Atualmente, a JMO Jiu-Jitsu funciona em um espaço alugado, com estrutura voltada tanto para o treinamento esportivo quanto para ações sociais. Além dos alunos regulares, o projeto mantém duas extensões como projetos sociais e outras quatro em fase de formação. A proposta, segundo Jeziel, vai além da formação técnica. “Nossa intenção é formar tanto atletas quanto deixar um legado de ensinamento, com o conceito de que corpo, mente e espírito formam o caráter de um bom lutador em sua amplitude”, explica.
A espiritualidade aparece como um dos pilares centrais do trabalho desenvolvido no centro de treinamento. De acordo com ele, esse aspecto é tratado como base para todas as ações, sempre respeitando a individualidade dos alunos e das famílias. “Levamos em consideração que temos como um dos pilares do nosso centro de treinamento a espiritualidade como base para tudo”, afirma.
A criação da JMO Jiu-Jitsu está diretamente ligada ao desejo de transformação social. “A motivação é ter a oportunidade de transformar vidas, construindo um caráter íntegro e deixando um legado de atletas com propósito”, destaca. Para ele, a prática do jiu-jitsu é um meio para desenvolver valores éticos e espirituais, aliados ao fortalecimento físico e mental.
Entre os principais desafios enfrentados no início da equipe, Jeziel aponta a necessidade de conquistar credibilidade dentro da comunidade. “Foi ganhar credibilidade”, resume. A estratégia adotada envolveu aproximação com as famílias e escuta ativa das necessidades de cada aluno. “Desenvolvemos uma estratégia de aproximação das famílias, ouvindo os motivos pelos quais cada um procurou o centro de treinamento e oferecendo um tratamento humanizado e acolhedor”, relata.
O perfil dos alunos atendidos é diverso. Muitos chegam por indicação médica, incluindo crianças atípicas. Outros buscam o jiu-jitsu após vivências de traumas familiares ou por questões relacionadas ao bullying escolar. Há também aqueles que procuram a modalidade como forma de autodefesa. Segundo Jeziel, esse contato direto com diferentes realidades reforçou o caráter social do projeto. “Temos orgulho de falar o quanto estamos ganhando espaço no bairro”, afirma.
A metodologia adotada pela JMO foi desenvolvida com foco na formação integral do aluno. O modelo pedagógico se apoia em princípios físicos, emocionais, morais e espirituais, estruturados em oito pilares: respeito, honestidade, autocontrole, amizade, cortesia, honra, coragem e modéstia, entendida como humildade. Esses valores são trabalhados de forma contínua e progressiva ao longo do ano.
No tatame, os treinos são conduzidos por meio de desafios constantes, com estímulo à superação de limites e à perseverança. “O foco está no equilíbrio entre corpo, mente e espírito, compreendendo o aluno como um ser integral em constante construção”, explica. A metodologia também inclui aulões temáticos e desafios de alta performance, realizados periodicamente, que buscam avaliar o desenvolvimento físico, motor e intelectual dos alunos.
No campo esportivo, a equipe já começa a colher resultados. Em 2025, atletas da JMO se destacaram na modalidade GI, com conquistas de cinturões em competições como a Copa Kids e o Indoorzinho. Entre os nomes citados por Jeziel estão Enrique Fernandes, terceiro colocado no ranking da modalidade GI, Guilherme da Silva Santos, Maria Helena Ferreira de Moraes, Theo e Cesar Lee de Souza Ifran, este último atleta autista, cuja evolução é apontada como um exemplo do impacto do projeto.
Para 2026, os objetivos incluem ampliar a participação em competições fora do estado e estimular os atletas a superarem o receio de competir. Há também planos de expansão do projeto, com a criação de novos centros de treinamento, inclusive fora de Mato Grosso do Sul. “Nosso legado vem sendo desenvolvido a partir da transformação que o jiu-jitsu faz na vida das pessoas, quanto a corpo, mente e espírito, desde o início, através de projetos sociais”, afirma.
Ao avaliar o cenário do jiu-jitsu no estado, Jeziel reconhece avanços, embora aponte a necessidade de melhorias. “Ainda está em crescimento, precisa melhorar em alguns aspectos, porém com grande evolução em relação a anos atrás”, analisa. Para ele, o papel da JMO é incentivar o surgimento de novos atletas e contribuir para o fortalecimento da federação sul-mato-grossense.
A mensagem final de Jeziel é direcionada aos jovens que ainda têm dúvidas sobre iniciar na modalidade. “O jiu-jitsu vai além do tatame. A construção social de valores e amizade desenvolvida é para a vida toda”, afirma. E completa com um convite direto: “Venha fazer uma aula experimental, tenho certeza de que o conceito vai mudar”.