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Ciclismo como escolha de vida: Marcia Bertol e a busca por inspirar novas atletas

da redação - 5 de jan de 2026 às 15:24 98 Views 0 Comentários
Ciclismo como escolha de vida: Marcia Bertol e a busca por inspirar novas atletas Da Redação

“Se eu conseguir fazer uma pessoa começar a pedalar, estou mais que satisfeita”. A frase resume não apenas o momento vivido por Marcia Bertol Carloto Rondon, mas também a forma como o ciclismo passou a ocupar um espaço definitivo em sua vida. Campo-grandense, nascida em 27 de outubro de 1984, ela encontrou na bicicleta não apenas uma alternativa às dores causadas por anos de lesões no esporte, mas um novo caminho de disciplina, superação e competitividade.

 

Antes de se tornar atleta do ciclismo de estrada, Marcia teve uma longa trajetória esportiva. Foram 14 anos dedicados ao padel, além de passagens pelo judô, onde alcançou a faixa marrom, e pelo tênis. As constantes lesões, no entanto, começaram a cobrar um preço alto. “Em um período de muitas dores, competindo no sacrifício, o médico indicou cirurgia para hérnias. Eu falei para mim mesma: não vou operar”, relembra. A orientação médica foi clara: o ciclismo poderia ser feito apenas de forma recreativa. Foi o suficiente para dar início a uma mudança que ela ainda não imaginava ser tão profunda.

 

No começo, a bicicleta era simples e o objetivo era apenas pedalar sem dor. A virada aconteceu com o incentivo de uma amiga. “Uma amiga, Tatiane Bergamo, me chamou para o ciclismo de estrada. Inclusive, depois de eu falar muito para ela que jamais pedalaria de madrugada. Pois bem, cá estou, e agradeço muito ela não ter desistido de me chamar”, conta. O que parecia um detalhe virou rotina. Hoje, grande parte dos treinos começa quando a cidade ainda dorme.

 

Treinar de madrugada, aliás, se tornou um dos principais desafios enfrentados por Marcia desde o início da trajetória no ciclismo em Mato Grosso do Sul. “Acordar todos os dias às 4 da manhã exige abdicar de muitas coisas”, afirma. Além da disciplina, há também a questão da segurança. Mesmo treinando majoritariamente no Parque dos Poderes, local frequentado por atletas, ela aponta falhas. “Não dá para treinar sozinha. O medo e a insegurança sempre estão juntos. Muitos motoristas não respeitam, fazem graça, tiram fino. É uma luta diária, mas tenho esperança de melhoras nesse quesito.”

 

Com pouco mais de dois anos e meio no ciclismo, Marcia já coleciona resultados expressivos em provas amadoras de longa distância, especialmente aquelas que simulam grandes competições internacionais. “Sempre gostei das provas de cicloturismo que simulam experiências de uma etapa de Tour de France, Giro d’Italia e provas do calendário da UCI”, explica. Em 2024, ficou em quarto lugar no Giro d’Italia Like a Pro Brasil. No mesmo ano e também em 2025, conquistou o título do Giro d’Italia Ride Like a Pro USA, disputado em Saint Augustine, na Flórida. “Essas provas coroaram um grande período de treinamento e aprendizado”, resume.

 

A rotina atual é intensa e organizada. Marcia treina ciclismo cinco vezes por semana, seguindo planilhas elaboradas pela treinadora Ana Paula Polegatch, de São Paulo. Além disso, realiza fortalecimento muscular duas vezes por semana, com acompanhamento fisioterapêutico. “Noventa por cento dos treinos são na madrugada, para conciliar com o trabalho e a rotina da família”, explica. Para ela, seguir o planejamento é fundamental. “Fisicamente, sigo quase 100% o que a planilha pede, para minimizar lesões.”

 

O preparo mental também tem raízes na trajetória esportiva anterior. “Graças a Deus, tenho uma base muito boa. Antes do ciclismo, joguei padel, tênis e fui judoca”, afirma. A escolha do ambiente ao redor também é estratégica. “Procuro estar sempre cercada de pessoas que somam e me ajudam a crescer, minimizando distrações.”

 

Ao observar o cenário do ciclismo feminino em Mato Grosso do Sul, Marcia avalia que ainda há espaço para crescimento, especialmente no ciclismo de estrada. “Percebo um número reduzido de mulheres adeptas”, diz. Para ela, maior integração entre modalidades como estrada e mountain bike poderia fortalecer o esporte no estado. “Torço muito para que as mulheres cada vez mais se unam e se apoiem, tanto no âmbito esportivo quanto competitivo.”

 

O apoio familiar é apontado como essencial para a permanência no esporte. “Família é a base de tudo”, afirma. A filha acompanha de perto a rotina de treinos e provas e se tornou uma motivação constante. “Ela é meu amuletinho da sorte, está sempre presente.” Marcia também defende a equipe Gilmar Bicicletas, que oferece suporte técnico, além de contar com parcerias e patrocínios voltados a equipamentos, preparação física e custos de competição.

 

Entre os momentos mais marcantes da carreira, um episódio recente sintetiza o peso das escolhas e o significado do esporte. Durante uma prova do L’Étape, em Campos do Jordão, a filha apresentou febre durante os dois dias antes da prova. “No dia anterior, cogitei não correr. Coração de mãe fica aflito”, relata. A decisão veio da própria filha. “Ela me disse: ‘Pode ir, mamãe. Vai e traz a medalha para mim’.” A prova foi concluída sem pódio, mas com um significado diferente. “Foi a prova mais difícil e, ao mesmo tempo, a de maior sentido para mim até hoje.”

 

Olhando para o futuro, Marcia já traça metas para 2026, incluindo a possibilidade de competir novamente fora do país. Ainda assim, ela reforça que o maior objetivo vai além de resultados. “Se eu conseguir fazer uma pessoa começar a pedalar, assim como muitas já iniciaram me vendo pedalar, estou mais que satisfeita”, afirma. Para ela, o ciclismo “é um esporte lindo, que tem muito a evoluir, transformando vidas”, inclusive a própria.

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