Da Redação
O jiu-jitsu entrou na vida de Meiryellen Pires Benites de forma natural, impulsionado pela convivência e pela afinidade com as lutas. Nascida em 12 de setembro de 1986, em Ribas do Rio Pardo (MS), ela conta que seu primeiro contato com a modalidade veio por influência do então namorado, hoje esposo. Antes disso, já tinha experiência com capoeira e muay thai. “Meu primeiro contato foi através do meu esposo. Eu sempre pratiquei luta, fiz capoeira e muay thai, e ele me apresentou ao jiu-jitsu”, lembra. O que a manteve no tatame foi a relação construída com a prática. “O que me motivou foi o amor ao esporte que desenvolvi durante a caminhada.”
Com o passar dos anos, essa trajetória resultou em títulos importantes. Meiry é tricampeã brasileira pela Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu (CBJJ) e bicampeã do Internacional Master da IBJJF. Entre as conquistas, ela destaca o peso simbólico do Brasileiro, especialmente por marcar um momento decisivo. “Quando estava de faixa marrom, pedi ao meu professor que me graduasse em um pódio de Brasileiro da CBJJ. O Brasileiro tem um gosto diferente, pois foi nele que me tornei faixa preta.” Já no Internacional Master, ela reconhece outro significado: “Veio para solidificar uma temporada de faixa preta em que lutei o ano todo sem sofrer nenhum ponto, invicta.”
Mesmo com os resultados expressivos, Meiry lembra que o ambiente competitivo e de treinos ainda é predominantemente formado por homens. Essa característica do tatame não a intimidou. Pelo contrário, moldou sua maneira de se posicionar desde cedo. “O tatame ainda é bem masculino. Temos que nos impor por mérito, sair na porrada com os homens e mostrar que merecemos nosso espaço.” Ela afirma ter buscado ocupar esse espaço de forma consciente e contínua. “Sempre fui ativista da causa e procurei lutar pelo espaço feminino. Sou atleta, professora, árbitra, e tudo isso treinando diariamente com homens e mulheres.”
A rotina de treinos, já como faixa preta, exigiu dela uma organização precisa. Ela resume a preparação como um processo que não permite atalhos. “Ser atleta de competição exige disciplina, constância e comprometimento. Você não pode fingir que treina, fingir que faz dieta, porque se faz mais ou menos, os resultados não vêm.” Durante o período competitivo mais intenso, sua agenda incluía seis treinos de jiu-jitsu por semana, preparação física três vezes por semana, além de dieta e descanso controlados. “A disciplina custa caro, mas te ensina sobre meritocracia”, afirma.
Entre os desafios enfrentados, Meiry aponta que impor respeito dentro do tatame foi um dos pontos mais marcantes. “Sempre tive uma postura séria no tatame. Respeite para ser respeitado”, resume. Segundo ela, essa postura foi essencial para se estabelecer tanto como atleta quanto como professora.
Atualmente, a formação de novos praticantes ocupa grande parte de sua rotina. Ela se especializou em aulas para crianças e trabalha também com alunos neuroatípicos. “Hoje tenho mais de 50 crianças na minha turma. Fiz vários cursos de metodologia para ensinar jiu-jitsu à criança.” A relação com os alunos é um dos pontos que mais valoriza: “Minha profissão do coração é me conectar com meus alunos no tatame.”
Ao longo de quase duas décadas de envolvimento com a modalidade, Meiry observou de perto a capacidade do jiu-jitsu de transformar realidades. “Se você é fraco, fica forte. Aprende a enfrentar seus medos”, diz. Ela relata que, nesses 19 anos de história da academia da qual faz parte, muitas pessoas passaram pelo tatame e carregam até hoje os impactos da prática. “O jiu-jitsu marcou a vida de cada uma delas.”
Além da técnica, ela tenta transmitir valores que considera fundamentais. “Disciplina. A luta sempre será você contra você mesmo. Tenha constância em tudo na vida e seja resiliente.” Esses princípios, segundo ela, sustentam também sua própria permanência no esporte. “Competir vou até morrer. Ensinar até morrer também. Não vivo sem lutar e sem ensinar. Será meu legado.”
Os planos atuais de Meiry incluem uma nova fase acadêmica e profissional. Ela foi aprovada em dois concursos e iniciou outra graduação recentemente. Tudo, segundo ela, tem ligação com a forma como o jiu-jitsu moldou sua postura diante dos desafios. “Comecei nova faculdade graças à disciplina e garra que a luta me proporcionou. Tudo que conquistei e o que conquistarei devo à arte suave.”