Da Redação
Aos quatro anos de idade, João Adolfo Messa Carvalho já fazia algo que poucos imaginariam para uma criança: fugia de casa para correr cerca de três quilômetros até o sítio dos avós. Na época, ele ainda não entendia o motivo daquela vontade de correr. Quatro décadas e meia depois, o menino que nasceu em Ponta Porã e cresceu em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, tornou-se um dos nomes mais conhecidos da corrida de rua em Mato Grosso do Sul. No meio esportivo, ele é conhecido simplesmente como Opi, e lidera a Adolfo Opi Treinamento de Corrida.
Hoje, aos 54 anos, Opi acumula 45 anos dedicados à corrida de rua, atua como treinador, preside a Associação Corredores da Fronteira (ACF) e continua incentivando pessoas a adotarem o esporte como parte da rotina.
"Comecei ainda criança. Nem eu entendia por que gostava tanto de correr. Meus pais contam que, aos quatro anos de idade, eu escapava de casa e corria cerca de três quilômetros até o sítio dos meus avós. Dessa fase tenho apenas algumas lembranças, mas, aos dez anos, já me recordo perfeitamente de procurar a Praça Tenente Valdez, em Pedro Juan Caballero, para correr. Comecei fazendo exatamente três quilômetros e, aos poucos, fui aumentando as distâncias", relembra.
Filho de mãe brasileira e pai paraguaio, ele diz ter orgulho das origens construídas na região de fronteira.
"Nasci em Ponta Porã, filho de mãe brasileira e pai paraguaio. Cresci em Pedro Juan Caballero, estudei ali e fui criado na fronteira. Sou, com muito orgulho, um brasiguaio."
A relação da família com o esporte também faz parte da história contada entre gerações. Segundo Opi, um antigo relato familiar fala sobre um militar português de sobrenome Carvalho que teria passado pela região de fronteira há muitos anos.
"Na minha família existe uma história contada de geração em geração. Um parente mais velho dizia que, muitos anos atrás, um militar português de sobrenome Carvalho passou por esta região de fronteira. Além da carreira militar, era esportista, praticava pentatlo militar e também jogava futebol. Acabou se estabelecendo no lado paraguaio, onde a família foi crescendo. Não posso afirmar essa história com precisão histórica, mas ela sempre fez parte da memória da nossa família."
Ele afirma que, ao longo da vida, encontrou diversos parentes com o mesmo sobrenome envolvidos com atividades esportivas, especialmente a corrida.
"O curioso é que, ao longo da vida, encontrei muitos Carvalho ligados ao esporte. Muitos são corredores. Inclusive conheci parentes distantes que também descobriram na corrida uma paixão, mesmo sem termos convivido. Talvez seja apenas coincidência, talvez exista uma herança familiar. O fato é que o esporte sempre pareceu fazer parte da nossa história."
Atualmente, a motivação para correr vai além dos resultados esportivos.
"Hoje, depois de 45 anos, não corro apenas por resultados. Corro pela saúde, pelo equilíbrio físico e mental, porque esse estilo de vida já faz parte da minha essência. A corrida me formou como atleta, como profissional e, principalmente, como pessoa."
Ao recordar o início da carreira, Opi afirma que o cenário da corrida de rua era completamente diferente do atual.
"Era tudo muito diferente. Existiam poucas provas, pouca estrutura e praticamente nenhum recurso tecnológico. Treinávamos muito mais pela experiência e pela vontade de evoluir. Naquela época, a percepção de esforço era o nosso GPS."
Segundo ele, o avanço da tecnologia contribuiu para o crescimento da modalidade.
"Hoje temos relógios esportivos, aplicativos, tênis com muita tecnologia e um calendário muito maior de provas. Isso ajudou a popularizar a corrida e atraiu milhares de novos praticantes. Mas existe uma coisa que nunca mudou: quem quer evoluir continua precisando de disciplina, regularidade e dedicação."
Entre as lembranças mais marcantes da juventude estão as viagens de trem até Campo Grande para disputar competições estaduais na década de 1980.
"As viagens de trem para Campo Grande eram longas e pareciam intermináveis, mas, para nós, eram uma verdadeira aventura. Íamos cheios de sonhos, com a expectativa de competir, aprender e representar bem nossa região."
Ao chegar à Capital, os atletas ficavam alojados no Estádio Morenão, enquanto as provas de pista eram realizadas no então Belmar Fidalgo, hoje Praça Esportiva Belmar Fidalgo.
"Era uma época de muito companheirismo. Criávamos amizades, revezávamos os tênis para competir, dependendo das provas, e essas amizades permanecem até hoje."
Ele também recorda provas tradicionais que marcaram a história do atletismo sul-mato-grossense.
"Também marcaram minha trajetória as grandes corridas de rua daquele período, como o Desafio das Moreninhas, a Corrida do Verde e a tradicional Maratona do Fogo, disputada no percurso oficial de 42.195 metros entre Fátima do Sul e Dourados. Em Dourados também havia a tradicional Copa Café Brasileiro de Pedestrianismo, organizada pelo professor Rubens Hissao Minaguti, o professor Bim (in memoriam), reunindo atletas de todo o Estado. Maracaju, Sidrolândia, Bela Vista e tantas outras cidades também promoviam grandes competições e ajudaram a construir a história da corrida de rua em Mato Grosso do Sul."
Durante esse período, Opi dividiu competições com nomes que ganharam projeção nacional.
"Tenho orgulho de dizer que pertenço à geração de grandes nomes do atletismo sul-mato-grossense, como Elenilson da Silva e Luiz Amarilha. Vivemos a mesma época, participamos das mesmas competições e acompanhamos de perto a evolução da corrida de rua no nosso Estado."
Apesar da longa trajetória nas provas, ele afirma que sua principal conquista não está relacionada aos resultados.
"Tive a felicidade de participar de inúmeras provas importantes ao longo da minha trajetória. Cada maratona, cada meia maratona e cada desafio deixaram um aprendizado. É claro que tive recordes pessoais e conquistas que guardo com carinho, mas hoje considero que minha maior vitória foi permanecer ativo durante 45 anos."
Segundo ele, a opção por conciliar esporte, família e trabalho influenciou sua carreira.
"Escolhi um caminho diferente de muitos grandes atletas. Enquanto alguns puderam dedicar suas vidas exclusivamente ao esporte, eu optei por conciliar três pilares que considero fundamentais: família, trabalho e corrida. Talvez essa escolha tenha limitado alguns resultados esportivos, mas me proporcionou uma trajetória sólida, equilibrada e da qual me orgulho muito."
Ao longo dessas décadas, Opi enfrentou lesões e momentos difíceis, mas afirma que nunca cogitou abandonar a corrida.
"Sempre entendi que eu não controlo o resultado. O que controlo é a preparação e o processo. Essa filosofia me manteve firme durante todos esses anos. Respeitar o corpo, adaptar os treinos e continuar em movimento sempre foi o meu caminho."
Hoje, grande parte da rotina está voltada para a formação de novos corredores.
"É uma satisfação enorme. Hoje, muitas vezes, comemoro mais a conquista de um aluno do que uma conquista pessoal. Ver uma pessoa sair do sedentarismo, completar seus primeiros cinco quilômetros ou realizar o sonho de correr uma maratona não tem preço. Formar corredores e mostrar que a corrida pode transformar vidas é uma das maiores recompensas da minha profissão."
Além de atuar como treinador à frente da Assessoria Esportiva Adolfo Opi, ele também preside a Associação Corredores da Fronteira (ACF), equipe que idealizou, fundou e dirige há 15 anos.
Segundo Opi, a associação foi criada para incentivar a prática da corrida de rua e ampliar o acesso ao esporte.
"A ACF nasceu com o propósito de incentivar a prática da corrida de rua, promover saúde, inclusão e qualidade de vida. Ao longo dos anos, tornou-se muito mais do que uma equipe: é uma comunidade que acolhe, orienta e transforma pessoas por meio do esporte."
Ao orientar corredores iniciantes, ele destaca que o principal erro é tentar acelerar a evolução.
"Muitos começam correndo forte todos os dias, esquecem da recuperação, da musculação e da progressão gradual. A corrida exige paciência. O corpo precisa de tempo para se adaptar. Respeitar o planejamento e manter a constância sempre produz resultados melhores do que ter pressa."
Para quem pretende disputar uma maratona, ele acredita que a disciplina é o principal fator para alcançar os objetivos.
"Os três são fundamentais, mas, se tivesse que escolher apenas um, escolheria a disciplina. É ela que faz o atleta treinar quando está motivado e também quando não está. A disciplina constrói o preparo físico, fortalece a mente e sustenta todo o processo. A maratona não é vencida apenas no dia da prova. Ela é construída durante meses de treinamento."
Ao analisar o crescimento da modalidade em Mato Grosso do Sul, Opi afirma que a corrida deixou de ser apenas uma atividade competitiva para fazer parte da rotina de milhares de pessoas.
"Hoje temos mais eventos, mais assessorias esportivas e pessoas de todas as idades praticando corrida. O mais bonito é perceber que a maioria desses corredores não vive do esporte. São pessoas que conciliam família, trabalho e corrida. Encontram tempo para treinar porque entenderam que correr é um investimento em saúde, qualidade de vida e bem-estar."
Para quem pretende começar, a orientação é simples.
"Comece. Não espere o momento perfeito. Respeite o seu ritmo, tenha paciência e seja constante. Não se compare com ninguém. Cada corredor tem sua própria história. A corrida ensina que pequenas atitudes, repetidas durante muito tempo, produzem grandes resultados. A medalha é importante, mas a maior conquista sempre será a pessoa em quem você se transforma durante essa caminhada."