Da Redação
“Todo esporte que eu faço é pra me salvar de mim. É pra não me deixar voltar do lugar de onde saí.” A frase dita por Joyce Nery resume com precisão a relação que ela construiu com a corrida de rua nos últimos anos. Mais do que um esporte, a prática se tornou um ponto de sustentação em um período marcado por rupturas, reconstruções e escolhas conscientes.
A aproximação com a corrida não começou por metas esportivas ou performance. Entre 2022 e 2023, Joyce enfrentou problemas pessoais que afetaram diretamente sua rotina e sua relação consigo mesma. “Quando se está com problema, seja ele da esfera que for, o que uma pessoa comum sempre faz é se entregar. A gente se entrega para uma vida sem prioridades, sem rotina, a gente deixa de se amar”, relata.
Na tentativa de encontrar um ponto de apoio, ela iniciou a musculação e buscou ajuda profissional. Sob orientação da personal trainer Kettylen Mendes, passou a incluir exercícios aeróbicos na rotina, ainda que com resistência. “Eu odiava cardio. Meu Deus, que tortura”, relembra. Os primeiros contatos com a corrida aconteceram na esteira, em forma de trotes curtos, apenas como parte do treinamento.
A virada inicial aconteceu quando Kettylen a inscreveu em uma corrida de 5 quilômetros em Coxim, cidade onde Joyce mora. No dia da prova, um contratempo impediu a presença da treinadora, que mesmo assim insistiu para que a aluna não desistisse. “Ela me ligou e disse que havia acontecido um problema, mas queria que eu corresse. Não era para eu desistir.”
Joyce completou os 5 quilômetros com dificuldade. “Cinco quilômetros pareciam dez”, conta. Ainda assim, cruzar a linha de chegada teve um significado particular. “No final da corrida, me senti feliz e vitoriosa, porque só eu sabia o que estava carregando.” Apesar da experiência, a corrida ainda não havia se tornado uma prioridade. Os treinos seguiram restritos à esteira, conforme a orientação da personal.
O passo seguinte veio por meio de um novo desafio lançado dentro de casa. A esposa, Talita, decidiu inscrevê-la na prova Bonito 21K, em dezembro de 2023, para a distância de 10 quilômetros. “Eu nunca tinha passado de cinco quilômetros e não sabia nada de corrida”, lembra Joyce. Ainda assim, aceitou o desafio.
O evento marcou um divisor de águas. “A Bonito 21K foi a virada de chave na minha vida”, afirma. O contato com o ambiente da prova, a estrutura do evento e as histórias das pessoas ao redor ampliaram sua percepção sobre o esporte. “Eu vi gente atravessando a linha de chegada aos prantos e comecei a entender a magia da corrida.”
Joyce completou os 10 quilômetros em 1h18, respeitando seus limites. “Teve um determinado local em que eu caminhei, e está tudo bem. Foi no meu tempo, do meu jeito.” Mais do que o resultado, o impacto veio da experiência. “A energia que eu senti naquele evento eu nunca tinha sentido. Foi algo surreal.”
Foi também em Bonito que ela conheceu Camila, treinadora de corrida que participava da prova dos 21 quilômetros. O contato evoluiu para uma assessoria esportiva. “Ela é uma profissional incrível e muito humana. Soube reconhecer meus limites e me ajudou com meus desafios.” Desde então, Camila se tornou treinadora e parte importante do processo.
O retorno do evento marcou uma mudança de postura. “Voltei sendo outra pessoa, determinada a cuidar de mim e a me amar. Não importava quais fossem as minhas dificuldades, eu só queria melhorar.” As transformações ultrapassaram o esporte. Joyce relata impactos diretos no comportamento, na rotina e no trabalho. “Como pessoa, a corrida me fez ser mais calma. Como profissional, me ensinou a lidar com pressão.”
A busca por evolução levou também ao fortalecimento muscular e à adoção de novos hábitos. A alimentação passou a ser organizada, e uma rotina estruturada se consolidou. “Hoje eu não me vejo sem rotina”, afirma. Joyce relembra um período em que o cuidado consigo mesma não existia. “Por anos, meu café da manhã foi coxinha, esfirra ou enroladinho com Coca-Cola. Isso é se envenenar, se matar.”
Além da corrida, ela encontrou no beach tênis um espaço complementar. “O beach é o lugar onde eu me desligo de todo o resto”, explica. A prática veio sem cobranças e no mesmo ritmo que ela adotou para o restante da vida. “Devagarinho, no meu tempo, sem pressão.”
Outro aprendizado citado por Joyce é a relação com a comparação. “Tenho amigas que correm melhor que eu, e é mérito delas. Um dia, no meu tempo, eu vou chegar a um pace menor.” O mesmo vale para o beach tênis. “Minha competição é comigo.”
Ao refletir sobre o processo, ela destaca a importância das relações próximas. “Não foram pessoas famosas da internet que me salvaram. Foram as daqui, de perto de mim.” A esposa, a personal trainer e a treinadora de corrida aparecem como figuras centrais nessa construção.
Para 2026, Joyce projeta um novo passo: sua primeira meia maratona. “Esse ano eu vou correr meus primeiros 21 quilômetros.” Para ela, o tempo de construção não é atraso, mas maturidade. “Depois de três anos, agora eu consigo. É agora que eu posso. Tudo o que eu estou construindo é sólido para mim.”
Ao aconselhar outras pessoas, Joyce é direta. “Vença você. Seja você. Não crie expectativas baseadas nos resultados de outras pessoas.” Um entendimento que, segundo ela, foi o esporte que trouxe — e que hoje orienta não só os treinos, mas a forma como enxerga a própria vida.