Personalidade | Gabriel Sato | 27/12/2019 08h49

Ultramaratonista de MS é primeira sul-americana a receber título na África do Sul

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Iniciar um esporte pode mudar a vida de muitas pessoas. Por meio de atividades físicas e com a prática de se exercitar, pessoas buscam melhorar a qualidade de vida e manter a saúde. E foi pensando nisso que a Oficial de Justiça Avaliadora Federal, lotada na Justiça Federal de Campo Grande/MS, Ana Márcia Borges Gomes, pensou ao começar a fazer musculação e correr. Segundo ela, todos os dias corria cerca de 1h20 na esteira e malhava diariamente por aproximadamente três horas, com exceção dos domingos. Certo dia, um professor de educação física resolveu insistir para que se inscrevesse em uma corrida de 10km, e tal atitude mudaria a vida de Ana Márcia para sempre.

Após muita insistência, a mulher que malhava apenas para manter o porte físico e a qualidade de vida, resolveu se aventurar no mundo das corridas, e o resultado: completou os 10 km muito bem e obteve a segunda colocação em sua categoria. Desde então, a paixão pelas corridas jamais saiu de seu coração e ela participou de 130 maratonas/ultras e mais de 100 corridas abaixo de 30 km. Ana Márcia corre há aproximadamente 19 anos.

No ano de 2001 e apaixonada pelo novo esporte que começara, a sul-mato-grossense visualizou a propaganda da Maratona de São Paulo na televisão, e então, sem nunca ter corrido mais que 15 km e sem nenhuma orientação de profissional da área, inscreveu-se na prova e completou sua primeira maratona com êxito. “Me senti muito bem, acredito que seja pela força muscular que adquiri devido a musculação que praticava por aproximadamente 10 anos. No dia da maratona, contei com o auxílio de minha tia Alaíde, a qual fez quase todo o percurso da maratona me acompanhando de metrô e me incentivando a cada estação que ela me aguardava. Me senti muito feliz e realizada na minha estreia na Maratona de São Paulo e senti o desejo de ser uma maratonista”.

Empolgada com seus resultados após uma semana de sua estreia na Maratona de SP, a nova maratonista, inscreveu-se em outra prova, desta vez, em seu Estado, na Maratona de Dourados/MS, e foi lá que Ana Márcia relata ter conhecido seu primeiro técnico, Claudinho Ribeiro. “Ele estava na cidade acompanhado a atleta Maria Zeferina Baldaia (campeã da Corrida de São Silvestre); então, contei sobre as minhas aventuras, no primeiro momento ele não acreditou e foi conferir na fita de filmagem da Maratona de São Paulo e constatou que o episódio era verídico, desde então, ele passou a ser o meu técnico e Maria Zeferina Baldaia uma querida e eterna amiga”.

Paixão pelas maratonas foi amor à primeira vista (Foto: Arquivo Pessoal)

Começo em ultramaratonas

Segundo Ana Márcia, sua primeira ultramaratona foi a Comrades Marathon, realizada na África do Sul, em 2006, com um percurso de aproximadamente 87 a 90 km. “Tudo começou, quando no ano de 2005, eu estava na cidade de São Paulo para participar da Corrida de São Silvestre, então recebi uma ligação de um amigo (residente em Brasília/DF), o qual me convidou para irmos correr a Comrades Marathon no ano de 2006, e é evidente que aceitei o convite na hora, pois, adoro superar desafios”.

Até sua estreia na Comrades, ela havia participado apenas de competições de até 50km, e diante disso, conversou com seu técnico o qual aprovou suas condições de completar a prova e enviou uma planilha de treinamentos com treinos longos nos finais de semana de 50, 60 e 70 km. Ana Márcia revela que pediu ajuda ao irmão, Edmilson Borges, que na época tinha uma camionete, e convidou amigos corredores, os quais uns corriam 10km e outros 15 e 20km, sempre alternando para que ela não corresse sozinha.

Ao viajar à África do Sul para a competição a ansiedade era grande e a maratonistas conseguiu completar a Comrades em 9h00m35s, o tempo foi bom, mas uma situação frustrou os planos, da agora, ultramaratonista. “Fui com a intenção de completar abaixo de nove horas objetivando conquistar a medalha de prata denominada ‘Bill Rowan’, portanto, até então eu achei que tinha conquistado porque não sabia que nesta prova não se leva em consideração o tempo líquido, e sim, o tempo bruto, pois, cruzei a linha de chegada e me deram a medalha concernente ao atleta que chegou acima de 9h (bronze), então, fiquei muito decepcionada e chorei muito.”

Ela relata que disse as seguintes palavras: “não retorno mais aqui, não corro mais esta prova”; mas no dia seguinte, estava fazendo planos para retornar no próximo ano e ainda que correr a prova por 10 anos na tentativa de ser uma ‘Green Number’. Pela Comrades ser uma prova muito difícil, o atleta que completa a corrida por 10 vezes, é premiado com o ‘Green Number’, que é a perpetuação do seu número de prova. Este é o prêmio máximo concedido pela organização e almejado por milhares de corredores. Ao cruzar a linha de chegada pela 10ª vez, o atleta recebe a sua medalha e é conduzido a uma área reservada onde é feita a solenidade de entrega, e um ex-campeão da prova entrega ao atleta essa condecoração, bordado em amarelo-ouro sobre um tecido na cor verde e ladeado de folhas de louro, o número passa a ser daquele atleta para a posteridade. E, a partir do ano seguinte, o seu número é diferenciado, na cor verde, para que todos os atletas e o público saibam que se trata de um Green Number.

Treinada pelo técnico do Estado de São Paulo, ‘Mestre Branca’, o qual orienta Ana Márcia há aproximadamente 13 anos, ele lhe disse a seguinte frase: se você almeja ser uma Green Number, em primeiro lugar, pense apenas em completar a Comrades Marathon, sem objetivar em qual tempo cruzará a linha de chegada; e assim ela fez. E, no ano de 2015, a atleta sul-mato-grossense realizou o seu sonho de conquistar o Green Number, sendo a primeira mulher sul-americana a receber a premiação, e para sua surpresa, seu prêmio foi entregue por seu ídolo, Bruce Fordace. Para ela, o momento foi algo mágico em sua vida. “Foi uma sensação indescritível, algo indelevelmente entranhado na minha alma, primeiramente agradeci a Deus pela dádiva alcançada, pelo incentivo da família e amigos e em especial ao meu treinador que me proporcionou os ensinamentos para esta sonhada conquista.”

Ana Márcia recebe seu Green Number (Foto: Arquivo Pessoal)

Participações em corridas de 24 horas

Ana Márcia também corre em competições de 24 horas. Seu recorde aconteceu na Ultramaratona de 24 horas dos Fuzileiros Navais, realizada no Rio de Janeiro, em julho de 2013, no qual a atleta correu 163 km e 281 metros, e conquistou a 3ª colocação geral feminino. Ela também foi vice-campeã da UltraMaratona 24 horas de Campinas e campeã nas 24 horas de Brasília/DF, além de outras participações estando entre as cinco primeiras colocadas no geral feminino.

Nas provas de 24 horas, a ultramaratonista costuma ter o auxílio de seu irmão Aluízio Borges, que acompanha a atleta sem dormir durante as 24 horas de prova lhe fornecendo hidratação e alimentação.

Neste ano, a atleta correu a ultramaratona Comrades pela 14ª vez, na África do Sul, e conquistou a medalha de bronze por tê-la concluído em 11h. Agora, seu próximo desafio será correr pela 15ª vez consecutiva a Comrades Marathon no ano de 2020. Ana Márcia revela que muitas pessoas tem curiosidades em saber como ela consegue participar e percorrer tanto kms, e ela revela que o poder da mente é essencial. “As pessoas me perguntam qual a diferença entre correr maratonas e ultras, pois digo que a diferença está na cabeça do atleta, sempre programo o meu lado psicológico de acordo com a quilometragem da prova, peço a proteção divina e procuro ser determinada e humilde, este é o segredo do sucesso.”

Além de praticar o atletismo, a ultramaratonista tem o objetivo de conhecer o mundo e procura participar de maratonas nos países que ainda não conhece.”Gosto de correr maratonas no exterior porque conheço novas culturas e experiências de vida; as viagens e as maratonas pelo mundo afora me fizeram uma pessoa extremamente feliz e realizada, hoje, conheço 58 países,” revela a atleta.

Oficial de Justiça Avaliadora Federal, lotada na Justiça Federal de Campo Grande/MS, Bacharel em Direito e com pós-graduação em Direito Constitucional, ela conta que seu tempo é complicado e corrido, mas para tudo se tem um jeito. “É difícil conciliar o trabalho com os treinos, mas quando você ama o que faz, tudo é possível, basta ter boa vontade, dedicação e acima de tudo fé em Deus, e aí concilia-se tudo.”

Ultramaratonista conheceu 58 países por meio das maratonas (Foto: Arquivo Pessoal) 

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