Esporte Ágil - Anderson "Babão" é exemplo de superação ao vencer batalhas dentro e fora do octógono
Personalidade | Lucas Castro | 27/04/2018 15h00

Anderson "Babão" é exemplo de superação ao vencer batalhas dentro e fora do octógono

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Há quem diga que o esporte só é movido por resultados e meramente praticado para manter o corpo em constante exercício, em busca do ideal de se ter uma vida saudável. De fato, é, mas não se resume a esses aspectos. O esporte é, acima de tudo, motivado pela dedicação e superação. Exemplo disso, encontra-se na trajetória esportiva de Anderson Moraes Rocha, de 30 anos, lutador de artes marciais mistas (MMA), conhecido como Babão.

O paulista, natural de Osasco e que, atualmente, mora no município de Osvaldo Cruz, ingressou no mundo das artes marciais logo cedo. Com três anos de idade, começou a praticar Kung Fu, influenciado por seu pai, mestre dessa luta milenar chinesa. Dois anos mais tarde, partiu para o Hapkido e Judô. Babão revela que sempre foi fanático por lutas e não conseguia permanecer treinando só em uma modalidade. "Desde pequeno, onde tinha luta, queria estar no meio. Nunca fui aquele lutador que gostava só de um tipo de luta e, depois que entrou para o MMA, começou a buscar aprendizados em mais artes marciais. Por isso, acho que, hoje, sou um pouco completo".

Quando criança, Babão revela que sofria bullying na própria academia por estar acima do peso. “Naquela época se chamava de ‘zoação’ e isso me fortaleceu muito, treinava para mostrar para eles que um dia conseguiria chegar e, se Deus quiser, um dia eu chego, não tenho pressa”.

Ao todo, Babão já praticou sete modalidades de luta. De formação, o lutador é faixa-preta de Judô e Muay thai. No Jiu-jitsu, chegou a atingir a faixa-roxa. Na Capoeira, é monitor, que corresponde ao quarto estágio, representado pelo cordão amarelo-azul e permanência de três a cinco anos de aprendizado. “Pratiquei Boxe também. Além disso, fiz Karatê, mas não cheguei a ir muito longe, porque tem muito pouca arte marcial na cidade onde moro, tanto que treino sozinho”, completou.

(Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

Batalhas fora dos ringues

Babão aponta que encontrou dificuldades desde o começo de sua trajetória no universo das artes marciais, antes mesmo de sua entrada no MMA, aos 18 anos de idade. Um dos principais empecilhos para competir é o fato de residir em Osvaldo Cruz, cidade com distância de 570 quilômetros da capital São Paulo - maior centro de artes marciais do estado - e com poucas competições organizadas. A princípio, os combates aconteciam na própria academia, onde um desafiava o outro. “Casávamos uma grana e a gente saía na porrada. Então, tenho que viajar bastante, toda semana tenho que partir para alguma cidade. As cidades mais próximas que têm MMA ou um Muay thai forte para treinar, estão à 100 km. Então, as dificuldades começam desde quando decidi ser um lutador”, confessou. Depois de conhecer e competir na “terra da garoa”, a carreira do lutador tomou um novo rumo. No MMA, Babão percorreu os estados de Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Paraná. Além disso, as inúmeras lesões também atrapalham a sequência do atleta. A principal delas foi a fratura das duas clavículas. Nada comparado com o que viria depois.

“Uma das maiores dificuldades que eu passei foi quando minha esposa perdeu um filho, foi bem difícil”, confidenciou o lutador. Quando a dor parecia anestesiada, Babão recebeu a notícia mais tocante em sua vida em janeiro do ano passado: o estágio inicial de um tumor em um de seus rins. “Eu tratava com um tumor normal, mas depois que os médicos fizeram a avaliação correta, era um câncer e tive que me afastar de vez das artes marciais, fiquei mais ou menos um ano e seis meses sem contato com a arte marcial”.

Logo após a operação de retirada do rim com câncer e posterior liberação médica, o retorno aos treinamentos na academia era questão de tempo, só que os desafios da vida não pararam por aí. Sua esposa havia engravidado novamente, com situação de risco e, portanto, com a necessidade de uma atenção redobrada. “Cuido da minha mulher, da casa e ainda treino. Dificuldade sempre vai existir, vai de cada um como enfrentará isso. O segredo é continuar firme e forte em seus sonhos”. Babão, atualmente, é professor de Judô em Osvaldo Cruz e possui academia própria para isso. Seu grande sonho mesmo é tirar todas crianças da rua, com seu projeto social. “Não quero depender de ninguém, quero comprar sozinho kimono para a molecada e, sempre depois de cada treino, dar uma alimentação correta para eles”.

(Foto: Divulgação/Judo Ju-kendo Osvaldo Cruz)

A respeito de patrocínio para custear viagens à competições, Babão afirma que consegue apoio da prefeitura e dos próprios moradores que, por morarem em uma cidade interiorana pequena, sabem das dificuldades uns dos outros e atuam em mútua cooperação. “Um tenta ajudar o outro e eu também sempre fui assim, sempre tentei ajudar todo mundo do jeito que dava, sem querer abraçar o mundo inteiro, mas tento ajudar do jeito que posso. Então, nas minhas dificuldades, muita gente me estendeu a mão e segui firme e forte”, revelou.

Para os treinamentos, o atleta garante que não recebe ajuda financeira, mas com materiais necessários para o aprimoramento na academia. “Eu não acho bacana receber ajuda em dinheiro, porque sempre gasto com alguma conta e acabo não investindo nos treinos. Hoje, tenho tudo para o meu treinamento”, afirmou. O principal empecilho para o aprimoramento dos treinos é a falta de parceiros para lutar, o que influencia diretamente na preparação de qualidade e em termos de competitividade. “Quando enfrento um cara muito forte, é bem difícil, porque muitos treinam 12 horas, com parceiros e técnicos, o que dificulta no desenvolvimento de uma boa luta. Começo a pegar o ritmo dele no último round, mas não é desculpa, porque posso estar com um braço só, uma perna só e vou continuar, não vou parar de lutar. Isso é minha vida e enquanto respirar estarei no tatame”, complementou o osasquense.

Competições

O atleta tem uma história de superação até em seu cartel. No total, Anderson Babão possui 21 lutas em seu currículo no MMA, sendo que são oito derrotas e 13 vitórias. Os oito revés consecutivos na carreira foram consecutivos. “Ganhei 3 e perdi 8 seguidas, depois consegui um cartel histórico de recuperação”, disse.

Entre as principais competições de MMA que participou estão: Batalha MMA, Demolidor Fight MMA, Predador Fight Championship de São Paulo; PRVT Fight no Rio de Janeiro e Extreme Fight Championship e Pantanal Fight Championship, em Mato Grosso do Sul.

(Foto: Divulgação/Batalha MMA)

Babão relata que sua luta mais marcante foi contra Matheus Serafim, lutador que já passou pelo Ultimate Fighting Championship (UFC) e, faz parte do sparring de Anderson Silva e, atualmente, treina com o Demian Maia. “É um cara excelente, além de ser essa fera, é meu amigo e pediu para lutarmos, não tive como recusar. Foi a luta mais forte que já fiz no MMA. Perdi, mas o cara é duro demais e ele diz até hoje que fui o primeiro cara a derrubar ele no octógono, porque nunca ninguém conseguiu. Então, foi uma luta que marcou muito a minha vida e marcou muito minha carreira”.

O lutador aponta que, ao pisar no octógono, sua meta é surpreender o adversário de todas as maneiras possíveis. “Minha principal característica dentro do octógono, dentro da luta, é a loucura mesmo”, revelou. Tecnicamente, seu forte é a luta no chão e a maioria de suas lutas acabam por lá, nada anormal quando se trata de um talento nato proveniente do Jiu-jitsu.

No Jiu-Jitsu, Anderson tem dois campeonatos paulistas e dois brasileiros, um na faixa-branca e um na faixa-azul. “Na roxa não ganhei nada e é uma das minhas metas, ganhar alguma coisa para poder passar de faixa”. A tradição se repetiu no Judô, modalidade na qual o lutador também já foi campeão paulista e brasileiro. Além disso, no rol de competições, o atleta tem três lutas de K-1 (torneio de Kickboxing), que resultaram em três vitórias, em campeonato organizado pelo famoso mestre Paraná, da PRVT.

Retorno ao octógono

O retorno de Babão às competições, depois da luta contra o câncer de rim, se deu no 18º Pantanal Fight Championship, sediado na cidade de Costa Rica/MS no dia 10 de março desse ano. O atleta figurava na principal disputa da noite, na categoria até 93 quilogramas, contra André Garcia. A cobertura especial do Esporte Ágil acompanhou a vitória de Babão, que terminou com Garcia ao chão recebendo atendimento médico em decorrência de uma lesão na perna direita. A principal disputa do cinturão da noite também foi transmitida pela Esporte Ágil TV.

(Foto: Emerson Freitas)

Mais do que uma vitória para o cartel, o combate no 18º PFC representou um marco na vida de Babão: a emoção de voltar aos octógonos depois de um ano e meio parado para tratar um câncer no rim. No microfone, logo após a disputa, o lutador pronunciou aquilo que seria um dos discursos mais emotivos de sua carreira como atleta de MMA e como ser humano. O choro foi questão de tempo, inevitável e logo escorreu em seu rosto.

A expectativa daqui para frente é conseguir voltar a lutar os eventos em alto nível e tentar entrar em alguma grande organização de MMA. Humildemente, Babão revela que seu sonho não é chegar no UFC. “Acho que é um nível muito alto para mim, quem sabe daqui a alguns anos eu consiga chegar perto do nível dos lutadores de lá. Gostaria mesmo de chegar um dia a lutar no Bellator MMA, que é mais pancadaria, é mais minha praia, curto bem mais esse estilo”.

É difícil definir em quantas competições participará neste ano. Contudo, até dezembro, o osasquense acredita que fará entre cinco e oito lutas, duas já estão confirmadas. Enquanto isso, os treinos seguem.

(Foto: Divulgação)

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