Olimpíadas | GazetaPress | 18/04/2008 16h19

Atleta de MS será o 1º negro na história do hipismo dos Jogos

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São Paulo (SP) - O sul-mato-grossense Rogério da Silva Clementino é o primeiro cavaleiro garantido na equipe olímpica brasileira de adestramento para os Jogos de Pequim, em agosto. No final da manhã de hoje, ele atingiu o índice exigido pela Federação Eqüestre Internacional (FEI) pela segunda vez e confirmou sua classificação.

Clementino venceu a reprise Grande Prêmio no Concurso Internacional de Adestramento nível três estrelas, realizado no Clube Hípico de Santo Amaro com índice de 65,417%. O critério estabelecido pela Confederação Brasileira de Hipismo (CBH) exigia que os candidatos à vaga atingissem 64% em duas etapas seletivas. Há duas semanas, Clementino atingiu a marca pela primeira vez.

Além da confirmação de Clementino, a amazona Luiza Tavares de Almeida também chegou mais perto de assegurar sua classificação. Ela terminou o torneio em segundo, atingindo índice de 66,667%. Os dois fizeram parte da equipe medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de 2007, que obteve a vaga olímpica para o Brasil.

Garantido em Pequim, o cavaleiro aguardou já em lágrimas a divulgação do resultado de sua apresentação. "Deveria estar mais tranqüilo, mas entrei querendo me cobrar demais. Não queria deixar para a última prova e acho que isto pode ter me atrapalhado um pouquinho", explicou, aliviado após tomar conhecimento da nota. "Achei que não fui tão brilhante quanto na (seletiva) anterior, mas achava que dava e estava muito confiante", diz, lembrando sua impressão após a prova.

Ao contrário da imagem generalizada que se faz dos praticantes de hipismo, Clementino não nasceu em "berço de ouro". Órfão de pai, filho de doméstica e irmão de pedreiro, ele começou a trabalhar lidando com gado no Pantanal. Descoberto pelo cavaleiro pan-americano Leandro Silva, ele foi trabalhar para o empresário José Victor Oliva, que apostou em seu talento e incentivou a carreira do ginete.

Também às lágrimas, Zé Victor levou tempo para conseguir controlar a emoção e conversar com Clementino, que monta um cavalo de sua propriedade, o lusitano Nilo VO. "Você é um talento", elogiou o empresário no primeiro abraço. "Este resultado mostra aos outros que quem é motivado e tem talento chega em qualquer lugar", afirmou. "Lembro o Roger chegando há cinco, seis anos para trabalhar comigo e fazer os serviços mais primários, e hoje conseguindo o índice olímpico", definiu.

Ex-marido da ex-jogadora de basquete Hortência, Zé Victor dá valor especial à conquista de Clementino. "Eu sei o que a Hortência sofria e entendo o que é uma Olimpíada. E agora, o Roger vai estar entre os 50 melhores do mundo", exaltou.

O cavaleiro também se emociona com a conquista. "Claro que passa a história da minha vida (pela memória) porque não se deve nunca esquecer suas origens. A gente passou por muitas dificuldades, mas agora é bola pra frente", destaca, sem perder a humildade. "Não me sinto na elite. Não mudou nada nem vai mudar. Tudo é para glória de Deus, sem ele não estaria aqui", apressa-se em responder, dividindo o sucesso com os que o apoiaram. "Isto é um trabalho de equipe. É mérito nosso e vamos compartilhar com o povo brasileiro".

Clementino não é o único do conjunto que saiu da base para alcançar o topo. Sua montaria teve trajetória semelhante. "O Nilo era um cavalo largado quando vimos que tinha condição", destaca, apostando em um futuro ainda mais promissor para a montaria. "Ele é um cavalo muito inteligente e acredito que vai crescer ainda mais".

A evolução do conjunto ficou comprovada nos últimos oito meses, período que cavaleiro e montaria tiveram para se adaptar às reprises Grande Prêmio. Isto porque até o Pan do ano passado, a preparação toda foi feita em competições de nível São Jorge, com grau de dificuldade inferior.

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