Bate-Bola | Pedro Nogueira/Da Redação | 28/06/2011 12h22

Bate-Bola: Sérgio Pavão

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Sérgio Pavão

Sérgio Pavão é técnico e instrutor de futsal da Mace desde 1996. Este ano, paralelamente à Mace, ele está com novos projetos, como as Sereias da Vila no futebol feminino (1ª filial da equipe feminina do Santos FC ) e como técnico do Rádio Clube.

Pavão concedeu entrevista ao Esporte Ágil e revelou suas opiniões e pensamentos sobre o futsal e o esporte em geral.

Esporte Ágil - Porque você tornou-se professor e técnico de futsal?

Sérgio Pavão - Sempre fui apaixonado por esporte e tive a sorte de crescer no interior (em Ponta Porã) e a vantagem da cidade pequena é que na iniciação escolar todos os esportes são oferecidos. Treinei de tudo um pouco, vôlei, basquete, handebol, futsal. Na capital, pelo grande número de atletas infelizmente não é assim, você direciona a aptidão de uma criança para o esporte: Se for alto vai para o basquete, etc. Peguei gosto pelo esporte e comecei a jogar futsal aos quinze anos (um pouco tarde, mas ciente do esporte que queria). Desde 1996 sou técnico e instrutor de futsal das categorias de base da Mace e do feminino também. Trabalho na escolinha do Santos FC (Meninos da Vila) Sub-11 e no projeto de futebol feminino Sereias da Vila.

EA - Você reclamou da iniciação específica, de o aluno começar na escola e aprender só futsal, ou só vôlei. Como professor, como você vê as aulas de educação física de hoje na maioria das escolas?

SP - Minha reclamação é não oferecer todos os esportes para as crianças, seja pela estrutura do local de treinamento, ou pelo não entusiasmo do professor. E também a diminuição das aulas de educação física muito agravou esta situação. Houve grande avanço nos treinamentos e na qualificação dos treinadores: hoje em dia todo mundo pode jogar, basta a criança ser obediente taticamente e treinar com afinco. Na minha época não existiam as técnicas de treinamento que hoje inserem qualquer criança no esporte. Quem era bom era escolhido e quem era "perna de pau" tinha que ser o dono da bola.

A corrida ao ouro que virou o futebol criou uma grande pressão em cima dos atletas e isso tinha que ser mais cuidadoso. Futebol de campo dá dinheiro e hoje em dia o guri de quatro anos joga campo. A precocidade no futebol de campo não está obedecendo a estrutura física do atleta e isso é perigoso. Vejo atletas de oito anos treinando na areia, correndo quilômetros, treinando no mesmo espaço que um jogador adulto. A iniciação do atleta de futebol tinha que passar pelo futsal onde o espaço é menor, ele tem que pensar mais rápido, é um treino para ele raciocinar com mais velocidade durante o jogo. Com 12 anos vai para o campo, já com noções básicas, aí aprimora os movimentos e fundamentos do futebol de campo. O futsal ajuda muito no campo, todos craques começaram no futsal e se orgulham disso.

EA - As equipes da Mace sempre são consideradas fortes em qualquer competição de futsal. Pode-se dizer que tem dedo seu nisso?

SP -  Na Mace trabalho com treinamentos e disputas do fraldinha (7,8 anos) até o Sub-20. A Mace tem mérito, ela confia no meu trabalho, eu tenho total liberdade para trabalhar e hoje, graças a Deus, qualquer categoria da Mace que entra em quadra é respeitada pelo adversário. Futsal não é somente resultado, a gente trabalha com iniciação revelando talentos. Mas eu tenho um saldo positivo, ganhei mais do que perdi.

EA - E como é estar à frente da Mace, qual a responsabilidade de dar aula e ensinar tantos jovens atletas?

SP - Faço o que gosto, me realizo com as crianças. Trabalho com atletas de quatro anos, a criançada participa de festivais de futsal, é amador, não dá para competir. É o que me dá o gás de continuar. O futsal adulto me deu visibilidade no auge do futsal no Estado, quando a televisão transmitia ao vivo um jogo inteiro todo final de semana. Com essa visibilidade conquistada com o adulto pude mostrar que trabalho também com criança, que meu forte é com categorias de 7 a 12 anos.

Para o esporte de iniciação, de recreação é fundamental passar o esporte de forma lúdica, sem cobrança. Nas competições com as equipes é preciso "ralar, correr atrás" vão falar que eu reclamo, que estou na Mace, que tem uma estrutura excelente, mas sempre falta algo quando você quer atingir o topo. Sei que não é como escola publica que você não tem material, mas também vou atrás. Trabalhei dez anos na Uniderp, ganhamos tudo, fomos campeões brasileiro, estadual. Foram dez anos de projeto e eu ralei por seis anos, praticamente paguei para treinar, foi o preço que paguei para mostrar meu trabalho. Então tem que perseverar e gostar bastante. Teve uma época que eu que lavava os uniformes. Fui atrás de posto de gasolina para patrocinar o meu time e os pais de alunos, funcionários da Mace abasteciam lá. São alguns exemplos de "parceiros" que confiaram no meu trabalho e me ajudaram a conquistar os títulos. Então tem que ir atrás, isso ninguém vê.

EA - Você acha que a imprensa esportiva do Estado cumpre bem seu papel?

SP - A imprensa melhorou muito de uns quatro anos para cá, com a mídia digital. O Esporte Ágil é uma referência, você vê que há uma liberdade de falar o que achar correto e com responsabilidade. Porque tem muita gente que fala e depois esquece. A Gazeta MS de Dourados também faz um bom trabalho. Tem novos sites esportivos aparecendo, e isso é um bom sinal. É gratificante fazer esporte e saber que tem uma cobertura. O patrocínio vive disso, a escola (Mace) vive disso. É fundamental que mídia e esporte andem juntos. Claro, a gente ainda se depara com o "jabá", de ter que dar algo para o veículo fazer uma matéria. Tem muito disso, eu procuro ficar longe, não me envolvo.


EA - O Futsal também não recebe apoio suficiente como os outros esportes de menos expressão?

SP -  Reclamo mais da iniciativa privada. O governo municipal e estadual tem os seus projetos, querendo ou não, sai; reclamando ou não, sai. A Federação de futsal eu respeito, tem um calendário fixo, acho isso fantástico, você já se prepara para as competições e sabe que elas vão acontecer, que não vão mudar daqui dois meses. O conflito que eu tive com a federação já foi resolvido e esta tudo bem, temos uma relação muito boa. A iniciativa privada quase não comparece. E olha que estou falando de futsal, que é bem aceito na capital. Imagina os outros esportes. Tem empresário que não sabe que tem beneficio, a mídia pode ajudar a divulgar isso. Minha esperança é que com as olimpíadas, os empresários acreditem mais no esporte como investimento.

EA -  É possível comparar o futsal sul-mato-grossense com estados maiores como São Paulo, Paraná, Santa Catarina, os grandes pólos do futsal brasileiro?

SP -  A nossa formação de base bate de frente com qualquer estado do país, o que diferencia é o profissionalismo. Hoje no nosso estado, os atletas fazem faculdade e treinam, ou trabalham e treinam. Nos outros estados eles só treinam, então eles têm mais preparo, mais condicionamento, é profissional. Aqui os jogadores se destacam pela parte técnica individual. Nosso futsal é muito bom, temos ótimos técnicos e ótimos jogadores. O Marcênio (Carlos Barbosa-RS) está aí para provar.

O ideal era que o jogador tivesse um time aqui e com ele viajasse, conhecesse o país, disputasse os campeonatos, e voltasse. Afinal a família dele mora aqui. Mas não vou prender o cara, sei da situação atual, ele tem mesmo é que tentar a vida fora. O Roberson, do Grêmio, o Jean do São Paulo são de Campo Grande e a base deles foi o futsal campo-grandense. Eu tenho atletas na Mace que nasceram em 1998 que já tem pré-contrato com o São Paulo, isso é muito bom.

EA - Fale a respeito do seu projeto nas Sereias da Vila.

SP -  Formei uma equipe de futsal que há três anos jogam juntas, estão indo para o sub-20 e vão começar a faculdade. A partir disso é preciso pensar na renovação. A primeira filial da equipe Sereias Da Villa-Santos FC foi uma aposta minha, em poder oferecer uma boa estrutura para as meninas. O futebol feminino sempre sofreu muita discriminação no Estado e a qualidade técnica nunca era verdadeiramente reconhecida. Treinamos duas vezes por semana, e as atletas possuem fisioterapia e se preocupam em somente treinar e disputar as competições. Passou da hora de acabar com este preconceito de que futebol não é para meninas. Garotas que estudam, com família esclarecida, e também com grande qualidade técnica.

Acima de tudo o esporte funcionando como um instrumento de aproximação, de interação. O rico, o pobre, o branco e o negro praticando esporte e valorizando o conjunto. Agora estamos no projeto de participação da Copa Mercosul em julho, e o time das sereias fará a sua estréia. É legal começar a ver o projeto acontecer. O futebol feminino começa a crescer no estado, o Comercial tem formação boa. As equipes tradicionais do estado deveriam ter uma equipe feminina, isso muito ajudaria na modalidade. Dá para fazer uma seleção de 16 a 20 anos feminina do MS muito boa, se treinar com um bom planejamento e competir na Copa do Brasil, dá pra incomodar.

EA - E o seu projeto com o Rádio Clube?

SP - Estou com um projeto com o Rádio Clube, que foi inserido entre os clubes formadores de atletas do COB, fui chamado para mexer com Futsal sub-20 adulto e algumas categorias de base. É um dos poucos clubes do Centro-Oeste que foram contemplados com isso. Minha meta é levar o Rádio Clube para alguma competição nacional em 2012.

EA -  Resuma o que é esporte para você.

SP -  Esporte é somar, fazer amizade, eu só tenho que agradecer ao esporte. Mas para mim existe um segredo que deve ser sempre seguido. Se você fizer o esporte para só você aparecer, para ser "o cara", pode até dar certo, mas uma hora vai dar errado. Enquanto educadores precisamos dar o máximo de respaldo ao atleta para que eles sejam as estrelas. Graças a Deus tenho respaldo de muita gente pelo que realizo e por manter boas relações. Isso faz tudo valer a pena.

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